Wal Reis

A vida sem riscos minimiza a chance de más experiências. E de boas também

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*Wal Reis

Há alguns anos fiz uma matéria sobre mulheres que haviam sido enganadas por pilantras profissionais: homens de meia idade, com boa aparência e lábia, que chegavam até suas presas – mulheres também de meia idade e solitárias, com baixa autoestima, pouca ou nenhuma vivência em relacionamentos ou vidas tão áridas que qualquer meia dúzia de palavras bem colocadas eram suficientes para que entregassem a chave do coração e, às vezes, do cofre.

As narrativas variavam pouco uma para outra. Conversei com seis mulheres sendo que quatro haviam se iludido com o mesmo homem e apenas uma delas poderia ser considerada de classe média. As outras sobreviviam de aposentadoria ou pensão módicas. Os caçadores tinham em comum um bom conhecimento sobre a alma feminina e calma, muita calma para darem o bote. 

Mesmo entre as que sofreram perdas financeiras, a dor de não terem sido amadas de verdade era a mais lancinante. 

Mas foi o depoimento de uma mulher do interior do Espírito Santo o que mais me marcou. Uma pessoa simples, que havia se casado aos 17 anos em uma espécie de casamento arranjado e, após a morte prematura do marido dez anos depois, terminou o ensino médio e criou três filhos. Era funcionária pública recém-aposentada quando conversamos, cinco anos depois dos fatos. Adorava cinema e foi numa sala de exibição que conheceu o pretenso namorado, que, segundo ela, “parecia patrão”, de tão bem arrumado. Ela tinha 62 anos e ele dizia ter 60.

A partir daí a história seguia o mesmo enredo: troca de telefones, flores, narrativas cativantes sobre a própria biografia, encontros, “não consigo parar de pensar em você’, declarações mais acaloradas, presentes singelos, “posso conhecer sua casa?” e assim por diante. O “namoro” durou quatro meses até o tiro de misericórdia: um empréstimo consignado de R$ 15 mil e o sumiço total do cidadão.

Enquanto me dava detalhes sobre os acontecimentos, me chamou a atenção o fato de não parecer guardar mágoa, embora consciente do golpe sofrido. Foi quando fiz a pergunta inevitável: “o que você diria para mulheres que se sentem atraídas por este tipo de homem?”

– “Tenham cuidado, mas não deixem de tentar” – disse ela, sem titubear. E, diante de meu silêncio, completou: “em 62 anos nunca ninguém me olhou como mulher. Desde que me conheço por gente, só lembro de ouvir ordens, incluindo do meu finado. Nunca teve palavra bonita, ninguém perguntando do que eu gostava ou deixava de gostar. Tive muito trabalho e pouco descanso. De repente me senti atriz de novela, recebendo carta de amor, me arrumando pra jantar em restaurante, com direito a beijo de verdade. Sei que não foi verdade da parte dele, mas se não tentasse, como iria saber? Hoje quando lembro da burrice de ter assinado o empréstimo, me consolo pensando que paguei R$ 15 mil para ter memórias bonitas. Novela também não é de verdade. Mas emociona.”

Foi um tapa na cara de quem já começa a reportagem com a pauta pronta: ia escrever sobre mulheres iludidas e arrependidas. Mas aquele não era um caso assim. Ela lamentava sim não ter ouvido a própria consciência quando aceitou financiar uma dívida que o fulano supostamente tinha com a ex-mulher. Mas entendi seu ponto de vista: assim que a ficha caiu, chorou, sofreu, se sentiu humilhada, mas havia tentado ser feliz. Porque, da parte dela, a paixão foi verdadeira e talvez passasse o resto da vida sem conhecer este sentimento.

Só toma rasteira quem está em pé

Quando andamos olhando para o chão, as chances de tropeçar diminuem drasticamente. Chegamos ilesos, preservados de tombos, mas sem muito para contar.  

Nossa personagem capixaba não era mulher de malandro e sem nenhuma vocação para ser ludibriada e, claro, ninguém em sã quer isso para si. Mas escolheu seu jeito de encarar o episódio, depois de ter aprendido a lição: ao invés de lamentar por ter sido vítima, aceitou que viver implica em acumular boas e más experiências, em estar alerta para se esquivar de golpes, mas mais alerta ainda para não deixar que o livro da nossa história termine com muitas páginas em branco.

 *Wal Reis é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br

Foto: Dariusz Sankowski (Pixbay)

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