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Vida e Saúde Wal Reis

O ideal de família e a família ideal

Por Wal Reis. Jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br
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Um dos dois, seguramente, é fake news.

Acredito que a maioria de nós lembra de um dia ter desejado pertencer a outra família, na qual as coisas pareciam funcionar melhor: a família de um vizinho ou até de novela. Qualquer uma que, na comparação com a nossa própria, trazia a sensação de injustiça por termos caído no ninho errado.

O meu ideal de família veio por meio de uma amiga do colégio. Era um núcleo de quatro pessoas: os pais, duas filhas e um cachorro. A mãe, professora em meio período, o pai advogado. Eu frequentava a casa impecável, zelada por uma empregada que morava ali – uma espécie de luxo para a classe média da época. Tinha piano na sala e tudo absolutamente no lugar, como em um cenário. Faziam as refeições no mesmo horário, todos sentados à mesa, com o patriarca na cabeceira e as conversas eram amenas e cheias de sorrisos. Me sentia participando de um filme e era um pouco frustrante voltar para minha casa, onde a rotina seguia outro ritmo, bem mais caótico.

Família é uma espécie de loteria mesmo: você pode nascer em uma perfeitinha ou chegar em uma desconjuntada. Em ambas se sobrevive. Crescer em um lar harmonioso, protegido por pais zelosos e estrutura financeira ok, não garante que os descendentes sairão dali grandes pessoas. Esta estufa de gente pode até criar desajustados e fracos, inclusive. Todo mundo tem um exemplo assim.

Ao passo que uma família não funcional pode sim gerar filhos igualmente descomprometidos, mas não é uma regra. Ao contrário: talvez este tipo de criadouro facilite a formação de gerações mais focadas em buscar os próprios ideais, justamente por conviverem no contraponto. Famílias onde a união não faz a força são uma espécie de pós-graduação em resiliência.

Sobreviventes

Na verdade, sobrevivemos à família. Vamos construindo nossa história “apesar de”. Culpar a família pelas escolhas que fazemos depois de adultos pode ser uma muleta conveniente de segurar, mas é uma muleta. Fica a nosso critério manter as referências e construir nossa própria família à imagem e semelhança daquela na qual fomos criados ou sair em busca do que acreditamos ser melhor, cientes de que, mesmo assim, nunca será a ideal.

Porque família é feita de gente. Gente que erra e acerta o tempo todo e, principalmente, gente que muda. Por isso as famílias não são organizações estanques. Aquele irmão que te atormentava quando tinha 10 anos e que você tinha vontade de enfiar dentro da máquina de lavar roupa hoje pode ser seu amigo. Seus pais, que colecionavam brigas homéricas podem ter encontrado harmonia em uma relação mais madura, com mais cumplicidade.

Faz pouco tempo reencontrei minha amiga, aquela do lar perfeito, no Metrô. Não nos víamos há muitos anos. E entendi que a família que idealizei na infância era uma foto em rede social: eu via o que era para ser visto, mas não os bastidores. Descobri que os pais se separaram em sua adolescência, quando a mãe descobriu que o marido mantinha uma amante num endereço de luxo da cidade. Ela e a irmã não se falam depois de se desentenderem por uma herança deixada por uma tia portuguesa.

Saí da conversa convicta que, mesmo nas famílias de comercial de margarina, uma vez apagadas as luzes do set, o pão acaba caindo, invariavelmente, com a manteiga para baixo. E isso não é bom, nem ruim. É simplesmente a vida como ela é.

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