Parque Nacional do Arcos, em Moab, Utah
José Roberto Luchetti Turismo

Reportagem da Acontece atravessa de carro os Estados Unidos

De Miami a Los Angeles, o jornalista José Luchetti percorreu mais de 10 mil quilômetros e traz os detalhes dessa aventura recheada de descobertas e poesia.
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Viajar pelos Estados Unidos de carro é realmente uma experiência interessante pelas paisagens contrastantes e diversidade cultural desse imenso país. Fazendo essa reportagem especial para a Acontece, percorri 6.747,9 milhas, o equivalente 10.800 quilômetros de estradas de Miami até Los Angeles por 17 estados, galões e galões de gasolina, um pneu furado, uma troca de óleo, dois oceanos, e muita gente bacana pelo caminho.

Os gastos com gasolina ficaram em torno de 800 dólares e a hospedagem entre 50 e 80 dólares por dia, já que a opção foi por hostels ou casas de família em Airbnb, para que fosse possível pegar dicas locais com moradores das cidades. Pelo Airbnb sempre me hospedei em Superhost, categoria um pouco mais cara, mas que traz um acolhimento diferenciado e anfitriões sempre dispostos a ajudar, conversar e dar dicas da região, aquelas que não estão em guias de turismo.

Contratempos de uma road trip, no Texas

Durante 25 dias de travessia, a ida foi pelo Sul com pernoites em Tampa, Orlando, Pensacola, New Orleans, Houston, San Antonio, El Paso, Phoenix e Los Angeles. Já a volta foi pelo meio norte, mas fui acompanhando a previsão do tempo para não pegar nevascas que pudessem atrasar a road trip, já que a partida se deu em 31 de dezembro e atravessou quase todo o mês de janeiro, ou seja, em pleno inverno. Deu certo, não precisei usar correntes de neve nos pneus, em nenhum momento. No retorno, fiz paradas em Las Vegas, para visitas ao Grand Canyon e Vale da Morte, Moab, Denver, Kansas City, St. Loius e East St. Louis, Nashville, Savannah, Orlando e finalmente Miami, ponto também da partida.

Durante cada etapa da viagem um diário de bordo foi publicado no Instagram da Acontece com as primeiras impressões. Visitei lugares óbvios como a Bourbon Street, em New Orleans, rua dos bares com música ao vivo, a Strip, em Vegas, áreas dos principais casinos da cidade, e a Broadway, em Nashville que é a capital americana da Country Music, mas é também a Mecca de outros estilos, até internacionais. Vários artistas se apresentam nos bares para serem reconhecidos e terem uma oportunidade em uma das várias gravadoras que possuem estúdios na cidade. Portanto, a música ao vivo é de excelente qualidade e não se paga nada por isso, apenas a bebida consumida e as gorjetas.

Reserva indígena Hualapai, no Grand Canyon, Arizona

Também foi possível visitar em lugares inusitados como o Parque Nacional do Arcos, em Moab, Utah, a reserva indígena de Hualapai, no Grand Canyon, com um Skywalk de 4 mil pés lançado para o desfiladeiro de montanhas no Arizona e o muro que separa os Estados Unidos do México, em El Paso, no Texas. Uma experiência impactante de ver e vivenciar. As famílias pobres e simples do outro lado pedindo um dólar para fazer a única refeição do dia, mas ao mesmo tempo com largos sorrisos no rosto que pouco se vê do lado americano do muro.

Um dos momentos mais emblemáticos foi visitar a casa onde Miles Davis morou em East St. Louis em Illinois. O rei do blues viveu do primeiro ano de vida até se formar no High School da cidade. Depois, ele foi estudar música em Nova York, na tradicional Juilliard School. A casa em East St. Louis está inteiramente reformada e é atualmente um centro cultural para a comunidade local, além de resgatar a memória do maior trompetista de todos os tempos.

Casa onde viveu Miles Daves em East St. Louis

Já em San Antonio, no Texas, há uma atmosfera mexicana, mais festiva do que em El Paso, e não é por menos que ao longo do River Walk, bares e restaurantes servem os tradicionais pratos da culinária Tex-Mex com barbecues, tortillas, guacamoles. Uma prova que não há muro que divida a unidade cultural de dois povos. Enquanto você espera o jantar no final de tarde, é possível apreciar os barcos que circulam pelos canais. Criado em 1920 para conter a água das chuvas, o conjunto de canais é o principal ponto turístico. Outros locais imperdíveis são as construções com mais de 300 anos das missões espanholas. A de San Antonio (The Alamo), que deu nome à cidade, fica em Downtown. Já a de San José nos arredores, uns 10 minutos, está muito bem conservada.

As lendárias Missões espanholas, em San Antonio.

Em Phoenix, uma caminhada a pé pelo Papago Park das Red Mountains, no final do dia, é um lugar perfeito para o pôr do sol, considerado o mais bonito da região. E depois um jantar em Scottsdale, cidade da região metropolitana, com típico centrinho turístico do meio oeste americano – bares, restaurantes e lojas de artesanato feito por tribos indígenas locais.

Em Denver, o Colorado, duas dicas são essenciais para conhecer a área: Estes Park que fica encravada nas Montanhas Rochosas e a cerca de uma hora de Downtown Denver, onde a caminhada é por lugares bucólicos, como o Spring River, coberto pela neve do inverno nessa época do ano e o final de tarde no Dairy Block, um micro distrito de entretenimento, restaurantes, lojinhas e bares que circundam a Union Station. St. Louis, depois de uma passagem por Kansas City, apenas para dormir, tem como principal atração o Arco, considerado o portal para o Oeste. O monumento com 192 metros, à margem do Rio Mississipi, é o maior em aço inoxidável do mundo.

Rio Colorado, nos arredores de Denver

Los Angeles e Savannah foram os dois pontos extremos da viagem, onde pude tocar a mão e os pés nas águas dos dois oceanos. Em Newport Beach, nos arredores de LA, na Califórnia, foi o Pacífico e no delta do rio Savannah, na Geórgia, o reencontro com o Atlântico.

Uma road trip cheia de significados e de descobertas, mas a principal delas o fato de ter ido. Muitas vezes não tocamos projetos e deixamos para o amanhã, que pode nunca chegar. Nos últimos tempos, vivo toda a possibilidade do hoje, tendo o poema da Travessia de Fernando Pessoa como inspiração: “se não ousarmos fazê-la (a travessia), teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Papago Park das Montanhas Vermelhas de Phoenix

Ao longo dos 25 dias, além do registro de viagem publiquei pensamentos, com entusiasmo criador no mesmo Fernando Pessoa, e impressões sobre a road trip e as experiências vividas. Quem quiser rever ou pegar dicas e detalhes sobre a viagem “Compostela sobre Rodas” basta visitar o Instagram da revista @acontece.

A viagem

O jornalista José Luchetti, colunista do Conexão Orlando e integrante do Conselho Editorial da Acontece, viveu um dilema pessoal, em fevereiro do ano passado, e a partir desse fato resinificou a própria vida. “Quando você vive um rompimento é preciso fazer uma viagem interna para os seus infinitos e entender com será de agora em diante”, conta.

Luchetti viveu no Uruguai por cerca de cinco meses em 2022 onde começou, segundo ele, essa jornada para dentro. “Foi preciso essa introspecção para descobrir o que eu queria fazer. A minha profissão permite o trabalho a distância e decidi viver com o pé na estrada”. Uma das travessias até o Uruguai foi feita de carro e possibilitou que Luchetti desbravasse o sul do Brasil e praticamente todo o território do “paisito”, como é carinhosamente apelidado entre os uruguaios.

Arco de St. Louis, a porta para o Oeste

“Na volta desta road trip parei em Três Coroas para visitar um templo budista e programei para o dia e horário de um jogo do Brasil na fase eliminatória da Copa do Catar. O lugar estava completamente vazio e no templo principal fiz uma meditação por exatos 42 minutos, sentado na posição de Buda”, relembra Luchetti, que se define como agnóstico: “naquele momento algo aconteceu que me conectou com o universo, eu saí daquele lugar de alguma forma, como se a minha alma se desconectasse do próprio corpo, completamente diferente de como entrei”.

O jornalista, que também é escritor e desde a pandemia mantém uma página no Instagram (@palavras.palavras.palavras) com ideias e pensamentos, “palavras ao vento”, como ele mesmo define, passou a escrever de forma compulsiva. “Os escritos se transformaram na minha própria companhia e um jeito de entender a vida e o que estamos fazendo por aqui, nesse planeta, cada um à sua forma”. A vinda para os Estados Unidos foi motivada para passar o Natal com a família, mas tudo aconteceu de forma diversa do planejado e Luchetti, mais uma vez, optou por colocar o pé na estrada para um novo período de reflexões.

Newport Beach, no litoral da Califórnia, e a vista do Pacífico.

Trocando mensagens com o diretor da Acontece, Antonio Martins e a editora Ana Martins, o jornalista sugeriu uma road trip de costa a costa, saindo de Miami até Los Angeles e depois retornando para Miami. “O Antônio Martins escreveu é uma ‘Compostela sobre Rodas’, em referência ao caminho dos peregrinos na Espanha. E foi exatamente isso! Algumas pessoas buscam ressignificar a vida com trabalhos voluntários e assistenciais, outras saindo da cidade grande e indo para o interior ou perto do mar, o meu destino seria viver com o pé na estrada. Decidimos publicar no Instagram da Acontece um diário de bordo com as impressões da viagem, mas no final sempre haveria uma reflexão, um pensamento sobre a estrada, os desertos, a vida…”, completou Luchetti. E assim foi!

José Roberto Luchetti é jornalista, escritor e sócio da DOC Press. Trabalhou nas emissoras Globo, Band e Rede Mulher, além da rádio Eldorado (atual rádio Estadão).

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