Foto: Fernando Zhiminaicela (Pixbay)
Vida e Saúde Wal Reis

O incrível exército (quase) invisível

Quando necessário, assim como nesses obscuros anos da pandemia, enfermeiros eauxiliares de enfermagem também fazem a ponte silenciosa que leva à cura.
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“Chame o médico”, vociferou a mulher para a auxiliar de enfermagem que tentava nitidamente acalmá-la, explicando que a criança já estava medicada e que a dor ia passar. “Você é surda? Mandei chamar o médico.”

Mas ela não era surda. Era invisível. Pelo menos para aquela mãe descontrolada, ali no pronto socorro municipal de uma cidade do interior paulista, a profissional que acumulava mais de 20 anos de profissão, com olhar complacente e voz mansa, era invisível. Com jeito de quem já está acostumada a cegueira alheia, a moça de branco saiu de perto do garotinho com braço engessado e sumiu por uma porta voltando minutos depois com um rapaz novo, de estetoscópio no pescoço.

Não consegui ouvir o que falaram, mas notei que a mulher baixou o tom de voz para se dirigir a ele, que confirmava os procedimentos feitos pela auxiliar de enfermagem, a mesma que agora limpava o rosto da criança com um lencinho, enquanto a distraia com um brinquedo tirado do bolso de seu avental. Menos pelo brinquedo, menos ainda pela presença do médico e muito provavelmente pela dipirona ministrada por Léia (estava no crachá), o menino foi parando de chorar. Para aquele tipo de emergência, a funcionária da enfermagem estava mais tarimbada do que o médico. Mas a mãe preferiu ignorar aquela experiência, apostando exclusivamente na grife de ter um doutor para avaliar um choro.

Não sei se dá para culpar a mãe prestimosa, mas certamente dá para refletir sobre o exército dos invisíveis: profissionais que – por aptidão ou não – decidiram pela retaguarda médica, por prestarem uma gama de serviços que às vezes inclui as tarefas menos glamourosas, mas igualmente imprescindíveis. Trocar fraldas e confidências, limpar vômitos e corpos inertes. Acatar ordens de quem, muitas vezes, sabe menos, mas pode mais. Consolar o que não tem consolo e oferecer abraços na alegria e na tristeza. Foi assim durante a pandemia, é assim no dia a dia dos hospitais mundo à fora.

Em todas as áreas existe quem faz o certo e quem faz o errado. Nenhuma novidade. Mas agimos igualmente errado quando desfocamos o olhar sobre os bons para enxergar apenas os maus profissionais ou pior ainda: quando não nos damos conta do valor de quem fica próximo e pode até não ter se preparado para diagnosticar uma doença, mas constrói a ponte para curar o corpo sem esquecer de aquecer a alma.   

*Wal Reis é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida.

Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br

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