Monica Grayley, autora de livro sobre a língua portuguesa como ativo político (crédito Getty Images/Luiz Rampelotto, Europanewswire)
José Roberto Luchetti Literatura

O português será falado por mais 500 milhões de pessoas até 2050

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Por José Luchetti

Entrevista com Monica Grayley – autora do livro “A língua portuguesa como ativo político” e editora-chefe da ONU News em português

Monica Villela Grayley é doutora em Ciências Políticas e autora do livro “A língua portuguesa como ativo político: um mundo de oportunidades para os países lusófonos, que foi lançado nos Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Brasil no mesmo ano. Editora-chefe da ONU News em Português, Monica foi diretora do Centro de Informação da ONU no México, porta-voz da presidente da Assembleia Geral da ONU, María Fernanda Espinosa, de 2018-2019, entre outros postos. Ex-jornalista da BBC de Londres e Deutsche Welle, ela começou sua carreira em rádio no Brasil, onde também trabalhou na Revista e TV Manchete. Monica tem advogado, durante décadas, por igualdade de gênero e maior participação das mulheres na política como uma das formas de alcançar  uma melhor gestão dos setores público e privado. Ela fala português, inglês, alemão e espanhol fluente. E utiliza o francês como língua de trabalho.

Acontece Magazine: Qual é a importância de termos um museu sobre a língua portuguesa?

Monica Grayley: O Museu de Língua Portuguesa é o primeiro do gênero na lusofonia. É uma grande iniciativa a ser celebrada em nossas culturas. Além de informar seus visitantes no Brasil sobre a importância de se falar esta língua, de maneiras interativa e criativa, ele também amplia a visão dos falantes do português que por lá passam ao mostrar as demais partes do mundo que têm o idioma como língua oficial. Esse sentido de pertença universal torna-se ainda mais acentuado após a reinaguração do Museu, que faz um trabalho ímpar de conduzir os visitantes a este maravilhoso mundo lusófono, de nos situar neste grande universo de língua portuguesa. Eu menciono o trabalho do Museu no meu livro, divulgado em 2019, como uma das grandes conquistas de promoção do idioma. Uma parceria público-privada que ajuda a projetar a língua a novos mares de afirmação política. É impossível visitar o Museu e não sair inspirado de lá ao nos redescobrimos parte dessa ponte de amizade que cruza oceanos. Fernando Pessoa dizia que “A minha pátria é a língua portuguesa”, no meu livro, eu convido o leitor a descobrir essa grande pátria virtual que é a nossa língua hoje e que vai das Américas à Ásia. É um privilégio fantástico.

E observe que na cerimônia de reinauguração do Museu, em julho, compareceram os presidentes de Portugal e Cabo Verde, representantes de Angola e outras nações de língua portuguesa numa clara demonstração da importância da nossa língua para o mundo. E bastante simbólico também é o fato de o Museu ser na Estação da Luz, um antigo ponto de chegadas de migrantes à maior cidade do Brasil, o que também remete ao conceito do português como língua de diásporas e da contribuição dessas línguas às culturas lusófonas. O Instituto Internacional de Língua Portuguesa, IILP, há 10 anos, indicou que havia uma estimativa de 7 milhões de pessoas que falam português vivendo na diáspora, um número que hoje é ainda mais alto.

E após este sucesso do Museu de Língua Portuguesa, lembro que foi fundado o Museu da Palavra, em Washington, no ano passado, e claro inclui o português entre as línguas mais faladas do mundo. Estamos avançando nessa consciência linguística e isso é bom.

Acontece Magazine: Qual é a relevância do nosso idioma nas Nações Unidas?

Monica Grayley:  Português não é língua oficial do Secretariado da ONU. A decisão sobre a introdução de uma língua oficial é prerrogativa dos países-membros da Organização. A Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, por exemplo tem o português como língua oficial ao lado do espanhol e do inglês. O idioma também é utilizado como língua de documentação na Organização Mundial de Propriedade Intelectual, Ompi, o que por sua vez facilita o registro de patentes por parte de inventores e criadores que muitas vezes não podem investir grandes quantias de dinheiro para traduzir documentos, por exemplo. Mesmo não sendo língua oficial na ONU, o idioma é utilizado no Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil, UNIC-Rio, como uma das línguas do Centro de Informação da ONU em Bruxelas e é uma das nove línguas da ONU News, que produz notícias e material jornalístico nas seis línguas oficiais mais português, suaíle e hindi. Mas se olharmos para outras organizações internacionais e regionais, veremos que ele é língua oficial na União Europeia, na União Africana e outras entidades, o que por si só sinaliza a importância do idioma falado num universo de mais de 280 milhões de pessoas em nove países e na Região Administrativa de Macau, na China. É a língua mais falada no Hemisfério Sul, a quinta ou sexta maior do mundo, e entre as 10 mais usadas na internet. Num universo de mias de 7 mil línguas no mundo, o português parece estar bem posicionado. E vai crescer ainda mais. Até 2050, ultrapassará a marca de 500 milhões de falantes e o maior número deles não será mais no Brasil. É uma língua em franco crescimento e movimento geopolítico também.

Acontece Magazine: De que forma a língua portuguesa pode ser um ativo político?

Monica Grayley:  A nossa língua já é um ativo político e é isso que apresento no livro. Ela é uma das poucas a estarem presentes em quatro continentes. Ela foi a primeira a ser globalizada. É o ponto comum de uma das organizações regionais e internacionais que mais crescem no momento, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP. Hoje, o bloco tem dezenas de países observadores incluindo França, Reino Unido, Japão, Estados Unidos, Índia etc. Ou seja, todo esse interesse se deve ao papel que esses países desempenham em suas variadas esferas geográficas e macroeconômicas de atuação. Quem se associa à CPLP se associa, indiretamente ao Mercosul, à União Europeia, à Cedeao, à União Africana, à Sadec, a organizações na Ásia com a presença do Timor-Leste e por aí vai. E o sucesso de diplomacia e do multilateralismo depende dessas pontes de amizade que vão se formando. A lusofonia é uma das fonias que tem na sua língua este processo de afirmação política e econômica. O mesmo já se dá na francofonia, na hispanofonia, na anglofonia. Não é coincidência que dentre os maiores parceiros econômicos da Espanha estejam nações latino-americanas que falam espanhol, do Reino Unido estejam Estados Unidos, Canadá e Austrália e o mesmo se dê entre França e nações francófonas. Falar a mesma língua também ajuda a promover laços econômicos. E onde isso não acontece, aprende-se a língua para negociar. Após as Grandes Navegações, era preciso falar português para negociar as mercadorias na Ásia, por exemplo. O ocaso da língua neste sentido começa a ocorrer após a união de Portugal à Espanha (1580-1640) por uma questão histórica, como sabemos.

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