Crédito: Stephanie Albert/Pixbay
Vida & Saúde

Por um mundo menos gourmet

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Estamos experimentando uma tendência meio esquisita de complicar o simples e justificar o injustificável.

A vida está cada vez mais gourmet. E uso o termo transcendendo seu emprego culinário. Mas é fato que existe um movimento crescente de gourmetização na cozinha. Outro dia meu marido me ligou do supermercado perguntando se eu gostava de biscoito de polvilho. “Gosto, claro. Pode trazer.” Quando abri uma embalagem chiquérrima e brilhante haviam quatro saquinhos dentro, estes sim, invólucros mais parecidos com o dos biscoitos de polvilho da minha memória, mas com um porém: um era de linhaça, outro de quinoa com pasta-base de banana, outro de farinha integral e um quarto com canela e açúcar. Exato: gourmetizaram o biscoito de polvilho. Todos muito bons, não vou negar. Mas essa corrida para transformar o simples em complexo é que me pega.

As reuniões de trabalho – em boa parte super dispensáveis – também são gourmetizadas. Meu exemplo mais fresco (nos dois sentidos) foi de uma reunião marcada para eu expor uma proposta de comunicação de lançamento de um produto, obra de uma multinacional conhecida, daquelas que, teoricamente, têm muita gente ocupada. Na reunião eram imprescindíveis três humanos: eu, o gerente de Marketing e o gerente do produto. Só.

Mas quando entrei na sala na data e horário marcados, paralisei ao me deparar com 17 pessoas sentadas à mesa e um garçom servindo água e café. Demorei para desfazer a cara de assombro e não porque tenha dificuldade para falar em público. Mas fiquei imaginando quantos departamentos haviam paralisado suas atividades, quantos e-mails importantes não seriam respondidos prontamente simplesmente porque alguém concluiu que aquela multidão – incluindo a gerente de RH e um tecnólogo, que, de tão envolvido com o tema, fez caricatura de todos os presentes no bloquinho de anotações – deveria ficar ali por três horas.

Mas como se aquele exército de áreas díspares não bastasse, a gourmetização ainda atingiu os discursos porque, uma vez reunidos, os colaboradores querem “aparecer”: “seja qual for o tema, devo falar algo inteligente – de preferência lançando mão de três ou quatro termos corporativos em inglês – para meu líder saber que estou aqui e minha contribuição é fundamental para atingir as metas da empresa.” É um tal de “precisamos implantar o benchmarking para melhorar nossos processos internos, enquanto estimulamos o outsourcing, sem deixar de lado o team building”. Ai, para, né? Preguiça total.

Mais recentemente foi a vez de eu me deparar com um programa da TV fechada sobre decoração. Mostravam casas e outros ambientes “originais”. Nesse episódio, “original” era ter objetos vintage – no caso, coisas interessantíssimas, como palitos de fósforos usados e um cigarro “fumado” há 30 anos por sei lá que famosa, descansando num cinzeiro sujo. Fazia parte do arranjo umas pilhas meladas manchando uma mesa de trabalho já cheia de pó. De acordo com o encardido proprietário da “instalação”, a poeira e as teias de aranha eram mantidas porque davam um ar de passagem do tempo. Sim: gourmetizaram até a sujeira.

Wal Reis
Jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre coisas da vida e comportamento no blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br

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