Intercontinental Hotel Miami. Foto: IHG
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Hotelaria: como o setor se reinventou para lidar com a pandemia

A pandemia de Covid-19 causou impactos sem precedentes na indústria hoteleira global. Uma combinação de lockdowns, suspensões ou restrições de viagens e fechamentos de fronteiras resultou no encerramento temporário de hotéis e em operações com capacidade reduzida. O segmento, que está acostumado a lidar com interrupções e períodos de baixas, nunca havia sentido o baque nessa proporção e escala.

De acordo com a Associação de Hotéis e Acomodações dos EUA (AHLA), os impactos tendem a ser nove vezes maiores que o dos ataques de 11 de setembro. Segundo a entidade, somente na Flórida havia 747 mil empregos diretos e indiretos no setor de hospedagem antes da pandemia. Deste total, a estimativa é de que 336.467 foram ou ainda serão perdidos devido ao impacto do Covid-19.
No contexto nacional, março de 2020 foi o pior mês na memória da indústria hoteleira nos EUA – somente no ano passado, o coronavírus deixou mais de 870 mil trabalhadores do setor sem emprego no país. No setor macro de turismo, a U.S. Travel Association calculou que o impacto econômico das viagens nos Estados Unidos encolheu 42% em 2020, de US$ 2,6 trilhões para US$ 1,5 trilhão. O volume de empregos na indústria de viagens também sofreu um grande golpe, com queda de empregos de cerca de 65%.

Michael Kkrymchantowski. Foto: Sebastian Bednarski

Mas como em meio à crise, quem se reinventa tem mais chances de mudar o cenário, alguns pontos positivos começam a ser olhados com mais atenção, como conta o brasileiro Michael Krymchantowski, proprietário de dois empreendimentos de hospedagem – um de flats e um hotel – os primeiros do ramo em Wynwood. “Depois de sermos obrigados a ficar os primeiros quatro meses fechados, quando a primeira autorização para a volta do funcionamento aconteceu, identificamos um nicho de clientes diferente dos turistas e empresários tradicionais: contratos mais longos, de um mês ou mais, para americanos de outros estados que escolheram a Flórida para passar o período de confinamento devido ao bom clima e leis mais brandas de recolhimento ou até para o público local, que pode se beneficiar com pacotes de tarifas mais baixas para temporadas”, explica. Michael vive em Miami há 13 anos e há 9 decidiu empreender no ramo de hospitalidade, investindo em uma localização que até então não era vista com o potencial de hoje. “Com este novo cenário vimos, por exemplo, que enquanto a pandemia ainda apresentar algum tipo de risco, este nicho que clientes deve permanecer na região, suprindo a ocupação em períodos que, em anos anteriores, eram de baixa procura”, completa.

Lobby do Intercontinental Hotel. Fotos: IHG

A rede IHG (InterContinental) também é um exemplo de empresa que buscou inovações quando a crise se instalou, como conta Hadi Habib, diretor que comanda unidade em Miami há 21 anos e com experiência na indústria hoteleira há 33. “Inicialmente, nós trabalhamos intensamente na implementação dos padrões de limpeza recomendados pela IHG. Com muito trabalho e colaboração dos funcionários mantivemos o hotel aberto atendendo principalmente as linhas aéreas e hóspedes que viajavam devido a serviços essenciais”, explica. Como soluções não habituais para se reinventar, Hadi também cita que a implementação de algumas facilidades e ferramentas foram primordiais. “O cancelamento de reservas sem nenhuma penalidade permitiu ao hóspede planejar viagens sem receio de perder dinheiro. Algumas tecnologias que já existiam mas não eram muito utilizadas também proporcionam várias opções para os hóspedes, como check-in automatizado, QRCodes para cardápios e aplicativos para requisições de produtos ou alimentos”. Com a baixa de turistas convencionais, o público local também conseguiu usufruir mais dos serviços oferecidos. “Investimos mais no tipo de serviço chamado de “staycation”, onde famílias que vivem perto dos hotéis podem passar fins de semana ou temporadas maiores usufruindo da infraestrutura de restaurantes, piscinas e spa para relaxar e se divertir de forma segura e sem sair da cidade, por exemplo”, completa.

Restaurante Toro Toro no Intercontinental. Fotos: IHG

Perspectivas para 2021

Mesmo com tantas dificuldades em 2020 e embora o setor ainda saiba que precisará passar por diversos obstáculos até retomar as operações semelhantes ao que era antes da crise, 2021 começou otimista. “Acredito que dentre os negócios que mais vão se beneficiar com a retomada no setor de turismo, os hotéis estão no topo do segmento. As pessoas querem viajar, querem viver essa demanda adormecida e este desejo vai ser um reflexo muito bom para o setor de hospitalidade”, prevê Michael. “Com o isolamento social diminuindo pela vacinação e conscientização de como se proteger, as pessoas querem muito voltar à normalidade. Os restaurantes, spas, academias e eventos em áreas abertas dos hotéis atraem esse público”, reforça Hadi, que completa: “Já começamos a sentir o impacto positivo, principalmente no sul da Flórida, que já possui o histórico de receber mais visitantes a lazer do que grande parte dos EUA. Os turistas americanos estão mais confortáveis em viajar e nosso clima no inverno está perfeito. O volume de hóspedes aumentou significativamente à medida que o número de pessoas vacinadas também cresceu”.

O que dizem os números

Apesar de pesquisas do setor de turismo e hospitalidade apontarem que crescimentos acima de 70% neste segmento nos EUA só serão uma realidade a partir de 2023, a expectativa para resultados a curto e médio prazo ainda é animadora. “Março trouxe boas esperanças, a curto prazo o mercado de turistas aumentou significativamente nos finais de semana. Acredito que em 2022 estaremos em uma situação bem mais favorável”, relata Hadi, esperançoso.

Hadi Habib. Foto: Pessoal

Outro exemplo é a mudança de comportamento para temporadas que, tradicionalmente, são ruins na Flórida. “Junho e julho, meses tradicionalmente de baixa procura na região tendem a ser diferentes, devido a uma grande porcentagem de pessoas vacinadas e também porque a expectativa de reabertura das fronteiras deve refletir no aumento da procura por turistas europeus e latino americanos”, anima-se Michael. “Junto com a pandemia, também surgiram novas oportunidades de negócios naturalmente. Precisamos focar neste lado positivo. A crise não deve nos desanimar, mas sim nos incentivar a agregar mais valores e diferenciais para os negócios e a nova realidade que nos espera”, conclui o empresário.

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