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Sem barreiras: conheça histórias de casais formados por PcD

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No mês dos namorados, esses casais contam como se conheceram, como é o relacionamento e contam planos para o futuro

O amor é um acontecimento que não escapa a ninguém. Todos os povos, todos os credos, todas as idades têm seus amores e paixões, que fazem com que as pessoas superem todos os obstáculos para estar com a pessoa amada e construir uma história de amor. Assim, nem mesmo características como deficiências físicas, intelectuais, múltiplas, doenças raras, transtornos psicossociais, entre outras, são empecilhos para que os casais construam um relacionamento duradouro e de parceria.

Sidney Tobias de Souza, analista de sistemas e consultor em acessibilidade digital de 59 anos, e Ana Claudia Domingues, pedagoga e especialista em educação especial, de 54, são a prova disso. O casal se conheceu há mais de dez anos, em uma conferência sobre acessibilidade. Ana Cláudia, de 54 anos, era cega há quatro anos na época, mas já tinha um grande engajamento com o universo das pessoas com deficiência. Ela atuava como presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Já Sidney, 59 anos e cego há 40, chamou a atenção de Ana pelo conhecimento que tinha sobre acessibilidade digital e também grande envolvimento com várias frentes que visam melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência.

A relação do casal, de acordo com Ana Claudia, é forte e harmoniosa. “Estamos juntos há cinco anos e, durante esse tempo, aprendemos a valorizar cada momento que passamos juntos, saboreando a companhia um do outro. A comunicação aberta e o respeito mútuo são pilares fundamentais da nossa convivência”, diz a pedagoga e pós-graduada em educação especial.

Mas, como em qualquer relacionamento, os dois também enfrentam dificuldades. Uma delas é o preconceito da sociedade e até de alguns amigos. Para Ana, a ideia de que duas pessoas com deficiência, particularmente cegas, não poderiam ter uma relação independente e amorosa é um reflexo do preconceito enraizado na sociedade. “Muitas vezes, as pessoas enxergam nossa deficiência antes de nos verem como indivíduos com desejos, sonhos e capacidades”, diz.

Outro casal que mostra que para o amor não existem barreiras é Bruno PNAE (sigla que significa Passageiro com Necessidade de Assistência Especial, termo utilizado na companhia aérea e adotado por Bruno como nome artístico nas redes sociais), 32 anos, e Auriany Dourado, de 37. Os dois se conheceram trabalhando em um mesmo departamento de uma companhia aérea brasileira, sete anos atrás. Como Auriany é do Norte, nascida no Pará, seu sotaque chamou a atenção e encantou Bruno. 

Ele tem deficiência visual e o namoro com Aury, que não tem deficiência, acaba chamando a atenção de algumas pessoas. “As pessoas perguntam, em tom de surpresa, sobre a questão de Aury estar namorando uma pessoa cega e também me perguntam se minha namorada também tem deficiência visual. Mas isso não nos incomoda e ignoramos ou respondemos educadamente aos questionamentos. Estamos indo para um estado de amadurecimento, entendendo as particularidades um do outro, alinhando expectativas e praticando a paciência independente da situação, rumo a construção de uma família com futuros filhos. A minha deficiência é só um detalhe, não um empecilho”, diz Bruno.

Rafaela Apolonia, de 24 anos, e Guido Garcez, de 27, são dois jovens que têm um namoro atípico. Rafa tem síndrome de Angelman, um distúrbio neurológico raro que prejudica o desenvolvimento motor e cognitivo desde os primeiros meses de vida. Já Guido tem paralisia cerebral. O casal namora, oficialmente, desde 2022.

Andréa Apolonia, mãe de Rafa, é quem dá mais detalhes sobre o relacionamento dos dois, que se conheceram e começaram a sair juntos no final da pandemia. “Tanto a Rafa quanto o Guido não falam, mas há uma troca de carinho e afeto entre os dois. Nós vemos que eles têm saudade um do outro, gostam de ficar e sair juntos, então é um namoro diferente”, diz. 

Os dois sempre gostaram de sair para passear juntos e a amizade acabou se estendendo às famílias. Andréa e Cris, mãe do Guido, passaram a incentivar esse relacionamento e sempre promovem encontros para que os jovens passem tempo juntos, enquanto as mães também podem trocar experiências.

Como os dois jovens são bastante dependentes para suas atividades do dia a dia, Andréia diz que não sabe o que esperar do futuro, mas que enquanto todos estiverem bem, vão continuar fazendo os programas com os dois e incentivando o namoro. 

“Temos muito orgulho da relação que estamos construindo juntos. É claro que quando saímos, isso chama a atenção, porque são dois jovens com deficiência. As pessoas se espantam quando eu falo que a Rafa tem um namorado, acham que ter uma deficiência é não poder ter prazer, se divertir, ainda é visto como uma catástrofe, como uma coisa ruim. Mas não vemos desta forma, sabemos que nossos filhos têm direito de fazer tudo e também de namorar”, diz Andréa.

Casamento em grande estilo

Quando se conheceram no projeto Expedição 21, do cineasta e educador Alex Duarte, em 2018, Samuel Carvalho Sestaro, de 34 anos, e Isabela Fernandes Correia, também de 34, se apaixonaram à primeira vista.

Os dois têm síndrome de Down. Isabela é modelo profissional e já venceu dois concursos de Miss, em Ponta Grossa e Curitiba, cidades do Paraná. Já Samuel é formado em Design de Moda e técnico em administração de empresas, além de ator, palestrante, modelo e mestre de cerimônias. O relacionamento seguiu de forma remota, já que Isabela morava em Ponta Grossa e Samuel em Santos (SP). Em março de 2022 a união definitiva foi selada em um casamento com direito a uma grande festa para toda a família e amigos. 

Hoje o casal mora sozinho em um apartamento em Santos. “Fazemos tudo em casa sozinhos, eu cozinho, o Samuel me ajuda a fazer o lanche da tarde, cuidamos da casa e fazemos nossas atividades juntos. É muito boa a vida de casado, gostamos muito de sair juntos, assistir TV, eu gosto muito de novela e o Samuel me acompanha”, diz Isabela.

O casal tem apoio constante dos familiares para pequenas coisas – a mãe de Samuel mora no mesmo prédio – mas têm uma vida de casal com muito carinho e companheirismo. Agora, os planos são trabalhar e viajar. “Gostamos muito de trabalhar como influenciadores digitais, com moda e também dando entrevistas para falar sobre a inclusão de pessoas com deficiência. Os planos para o futuro são continuar nossos trabalhos e viajar bastante”, diz Samuel.

Quando o amor se multiplica

Há casos em que o amor transborda e frutifica, como aconteceu com Guilherme Nichols, de 36 anos, e seu esposo, Jason Nichols, 48. Os dois são pessoas surdas, se conheceram através de uma comunidade de bate-papo por vídeo há quase 15 anos e hoje são pais do Zyan, de três anos.

Guilherme, como estudante de Letras-Libras, gostava de conhecer a língua de sinais de diferentes países e aprendeu com Jason a língua americana de sinais. Um detalhe: Guilherme é de São Paulo e Jason morava nos EUA na época, o que fazia com que a comunicação tivesse um desafio a mais. Os dois se conheceram pessoalmente em 2010, quando Guilherme foi visitar Jason em suas férias e, alguns meses depois, o americano se mudou para o Brasil e o casal passou a viver juntos.

De acordo com Guilherme, os dois enfrentaram algumas situações de preconceito por diversos motivos, mas o amor e o companheirismo os fazem seguir em frente com otimismo. “Acho que as pessoas não estavam preparadas para aceitar o fato de estarmos juntos sendo surdos, não falantes, além de sermos um casal homoafetivo com filho biológico por meio de fertilização in vitro. Esses desafios só têm fortalecido nosso relacionamento. Aprendemos a nos apoiar e a enfrentar as dificuldades juntos, sempre acreditando que nosso amor é maior do que qualquer preconceito”, diz. “Queremos continuar construindo uma vida feliz juntos, servindo como exemplo para a comunidade surda e promovendo a ideia de que pessoas surdas LGBTQ+ podem realizar seus sonhos, assim como nós”.

Sarah e Julio Cesar se conheceram 12 anos atrás, frequentando festas e eventos de amigos em comum. Ao ter mais contato e se aprofundarem nas conversas, passaram a se interessar um pelo outro. Assim, a inteligência, a boa conversa, o interesse dos dois pela música – Júlio gosta de tocar violão e Sarah gosta de cantar – acabaram fazendo-os se apaixonarem. Depois de pouco mais de dois anos se casaram e hoje têm um filho de dois anos.

“O amor continua o mesmo ou até maior pela passagem do tempo. Temos uma convivência muito pacífica, apoiamos um ao outro nas decisões, tanto profissionais quanto pessoais. Não temos um casamento perfeito, assim como nenhum é, mas temos uma relação realmente muito boa”, diz Sarah, que comenta ainda sobre preconceito. “Muita gente acha que duas pessoas cegas namorando é estranho. Mas escolhemos estar juntos por gostarmos um do outro e não por necessidade de ajuda ou algo assim. Queremos aumentar a família, continuar juntos até o fim, cuidando das nossas coisas como sempre fizemos”, diz.

“Assim como todos nós, as pessoas com deficiência têm direito a se relacionar, se casar, e constituir família, o que está inclusive apoiado no Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) e é parte da temática tratada na Autodefensoria, que atua em defesa da valorização da diversidade e da promoção da dignidade majoritariamente de das crianças, jovens, adultos e idosos com deficiência intelectual e múltipla, considerando suas necessidades e anseios, e contribuindo para a sua inclusão social”, diz Débora Goldzveig, gerente institucional do Instituto Serendipidade. A entidade oferece suporte a pessoas com deficiência e suas famílias de forma gratuita através de iniciativas próprias e também conta com parcerias com outras instituições para promover a plena inclusão de pessoas com deficiência.

Sobre o instituto

O Instituto Serendipidade é uma organização sem fins lucrativos que potencializa a inclusão de pessoas com deficiência, com propósito de transformar a sociedade através da inclusão. Visa ser impulsor de impacto social relevante, colaborativo e inovador, sempre prezando pela representatividade, protagonismo, de forma transversal e acima de tudo, com muito respeito. As iniciativas que atendem diretamente o público são: Programa de Iniciação Esportiva para crianças com síndrome de Down e deficiência intelectual, de famílias de baixa renda; Programa de Envelhecimento que atende mais de 60 idosos com algum tipo de deficiência intelectual para promoção do bem-estar, e o Projeto Laços, que acolhe famílias que recebem a notícia de que seu filho (a) tem algum tipo de deficiência. Atualmente o Serendipidade impacta mais de um milhão de pessoas, criando pontes, gerando valor em prol da Inclusão e através do atendimento direto a pessoas com deficiência intelectual e suas famílias.

Foto: Arquivo pessoal-Bruno PNAE e a namorada, Auriany Dourado

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