Wal Reis

Meu quase encontro com Martha Medeiros

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– Era a Martha Medeiros… disse enquanto ainda caia minha ficha.

– Quem?

Me desvencilhei da bolsa e do mate. Agarrei firme o celular e tentei seguir a camiseta listrada e o homem de cabelos grisalhos que acabavam de passar por mim. Meu marido – que permaneceu sentado com cara e ponto de interrogação – teria as explicações sobre a importância daquele quase encontro depois.

Enquanto marchava pela rambla, tentando não perdê-la de vista, me martirizava: “eu sabia que ela estava de férias aqui… devia estar mais atenta… passou me olhando… talvez tenha me reconhecido, afinal eu estava na décima fila de um auditório para 1,5 mil pessoas há cinco anos em uma palestra dela… ou talvez porque tenha estranhado uma brasileira com a maior pinta de paulistana tomando chimarrão … será que ela sabe que a gente escreve sobre as mesmas coisas?”

Peraí: cadê Martha?

Parei abruptamente na calçada olhando em todas as direções. Uma argentina, atrás de mim, não conseguiu brecar e me deu uma encoxada:

– “Ojo, señora, por Dios…”

– Ah, vai se ferrar – respondi em voz baixa, sentindo que – para piorar – a chuva que eu via poeticamente no horizonte há instantes já estava em cima da minha cabeça e uma multidão começou a correr em todas as direções.

Já era. Mesmo se a encontrasse agora, tentando se proteger da “tormenta elétrica” o que eu ia falar? “Martha, querida, temos muito que conversar. Mas vamos começar com uma selfie só pra garantir?” Ou algo mais técnico: “Ma, eu tenho muita preocupação com a estrutura do texto e por vezes o tema central fica em segundo plano e…”

Tinha alguém buzinando alucinadamente na minha direção. Pensei se era porque havia escolhido roupa branca e – ensopada daquele jeito – estava pagando de “garota tardia da camiseta molhada”. Mas era meu marido mesmo, que tentava alguma forma de resgate pra me levar para o manicômio uruguaio mais próximo.

Entrei no carro duplamente frustrada: não tinha dado nem um “oi” pra uma das escritoras que mais admiro e ainda teria que explicar porque logo eu, tão centrada, saí correndo atrás de uma desconhecida em pleno porto de Punta del Este.

*Wal Reis é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida.

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