Monólogo resgata a essência humana
Brasil José Roberto Luchetti

Em cartaz há 18 anos, peça desvenda os dilemas da meia idade

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Carreias consolidadas, filhos criados e na maioria das vezes já morando fora de casa e um casamento desgastado por muito tempo de convivência tecem o cenário perfeito para traições. Mas qual é o verdadeiro significado dessa palavra e onde ela se coloca? Trair é “pular a cerca” ou é permanecer contendo os desejos da alma? A peça Alma Imoral, que está em cartaz há quase 18 anos, desde junho de 2006, agora em São Paulo, resgata questionamentos entre o certo e o errado, a necessidade de romper limites para seguirmos vivos, entre o que é moral e imoral, a obediência e a desobediência, a traição e a tradição. Essa leitura pode parecer rasa em uma peça tão densa e com tanto significado, mas resume aonde esses dilemas vão parar.

Baseado no livro homônimo do rabino Nilton Bonder, o monólogo encenado pela atriz e dramaturga Clarice Niskier instiga o tempo todo a plateia e não há como sair do teatro sem repensar a vida e naquilo que fazemos rotineiramente de forma automática. Clarice Niskier inicia a peça contando como tudo começou ao conceder uma entrevista a um programa de televisão onde havia um âncora e vários entrevistados e ela se autodefiniu, logo no começo, como uma “judia budista”. Uma telespectadora, que se tornou personagem da peça, Dona Lea, encaminhou um fax para redação criticando a atriz e afirmando que “não existe judia budista, ou ela era bem uma judia ou uma budista”.

A intervenção desconcertante fez com que Clarice mal conseguisse responder as perguntas sequenciais do apresentador até que o rabino Nilton Bonder, que também estava sendo entrevistado “sentenciou”: “o budismo faz de você uma judia melhor”. Depois do programa, eles conversaram e ela leu o livro que havia sido publicado pela primeira vez em 1998. O impacto foi tão grande, na vida dela, que a atriz prevê que fará a peça até o seu último dia da vida: “vai ser incrível, eu com 101 anos dizendo que não há nudez na natureza”. Ao ser questionada pela reportagem da Acontece se ela enxerga outra atriz fazendo o mesmo papel pelo desafio de estar nua, em todos os sentidos, no palco, Clarice Niskier diz: “toda atriz que tiver o desejo radical de se desnudar diante do outro, de transgressão, desnudar a relação consigo mesma e com o outro, ela está capacitada a enfrentar a sua mortalidade. A alma imoral é a ponta de um iceberg de um corpo que se deseja liberto”, afirma.

Atriz rompe o tempo todo a “quarta parede” do teatro

Em cena somente a atriz, uma cadeira e um imenso pano preto que vai ganhando contornos de mantos, vestidos, véus e burca no corpo de Clarice Niskier, enquanto ela conta histórias filosóficas, parábolas da tradição judaica e até algumas passagens relatadas por espectadores que assistiram à peça e passaram a compor o roteiro. Em vários momentos, quando a atriz bebe um pouco de água, as luzes da plateia se acendem e o público passa a interagir repetindo palavras citadas no texto e Clarice retoma trechos da peça e repete alguma passagem para reforçar um conceito ou mensagem.

Além da cena desconcertante no início da peça, onde Clarice Niskier surpreende o espectador, o ponto alto de toda a encenação é o contante rompimento da “quarta parede” que é o conceito utilizado no teatro que se refere à barreira imaginária entre o palco e o público. Em uma configuração teatral tradicional, há três paredes visíveis para a audiência: as duas laterais e de fundo. A “quarta parede” é uma convenção que representa a ideia de que há uma parede invisível entre os atores e a plateia. E esse “ballet” que ora estabelece a “quarta parede” e ora rompe, a atriz faz com a mesma leveza que dança no palco e movimenta os braços que remete ao caminhar de uma serpente. Para ela o segredo em romper a “quarta parede” está no afeto ao se colocar por completo no presente: “você não existe sem aquelas pessoas (plateia) e aquelas pessoas não existem sem você”, explicou.

Em curta temporada, desde o começo de janeiro, a peça está em cartaz no Teatro Morumbi Shopping até 28 de abril com duração de 80 minutos e faixa etária de 18 anos.

Por José Roberto Luchetti

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