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Brasileiros aproveitam ‘onda’ de crescimento de Miami

Conterrâneos estão mais preparados que os de outras nações e até entre os próprios americanos nativos para essa nova fase da cidade e do estado
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Não é novidade que Miami sempre foi um destino nos EUA procurado por muitos que buscam um novo estilo de vida, temperatura quente na maior parte do ano, uma fuga do ritmo frenético e estressante das grandes cidades americanas e, de quebra, um benefício com as políticas fiscais, uma das mais baixas do país. Mas a crescente imigração após o início da pandemia de Covid-19 surpreendeu a todos. Miami tem sido chamada de “cidade mais importante da América”, devido a este cenário.

Durante a crise sanitária que assolou o mundo, americanos e outros cidadãos que já viviam nos EUA escolheram Miami como casa durante a pandemia. Este primeiro movimento foi de pessoas que já tinham imóveis na região, como casas de férias ou voltadas para o turismo. O que era apenas uma estadia com data para ir embora, se prolongou para muitos. E se tornou definitiva para tantos outros. Soma-se a isso, em um segundo momento, aqueles que não tinham residência da Flórida mas optaram por fazer as malas e começar uma nova vida em um estado diferente. O aumento do trabalho remoto e a mudança no cenário de negócios contribuíram.

O novo cenário em números

De julho de 2020 a julho de 2021, muito mais americanos se mudaram para a Flórida do que para qualquer outro estado americano – quase 221 mil registros, de acordo com o United States Census Bureau. Na imigração internacional, o número também surpreende: neste mesmo período, a Flórida ganhou 38.590 novos residentes de diversos locais do mundo, muitos do Brasil. Na contramão deste crescimento, três estados americanos tiveram perdas gigantescas com a migração doméstica: Califórnia, Nova York e Illinois.

Empresas também migraram

Com a migração de pessoas, muda-se também o lugar. E isso reflete diretamente na economia. Com o aumento do público, empresas também passam a almejar estar ali, para se beneficiar deste novo nicho de mercado.

Neste cenário de migração que a Flórida vivencia, empresas de todos os tipos e tamanhos colocaram em prática seus planos de expansão ou transferiram sua sede. Neste último quesito, uma particularidade foi em relação a companhias que antes tinham como endereço as grandes metrópoles, como Nova York, Chicago e São Francisco. No mercado de tecnologia, esta mudança foi acentuada, visto que grandes mídias e políticos locais fortalecem a mensagem que o Sul da Flórida já está se tornando o novo Vale do Silício. No setor financeiro, esta troca também é relevante: Spotify, Blackstone, Goldman Sachs, Ichan Enterprises L.P, Tesla, Starwood Property Trust e Colony Capital são alguns dos nomes fortes que estão na lista.

Diversos são os motivos que fazem com que grandes nomes optem pela região: imposto de renda corporativo baixo e nenhum imposto de renda pessoal; valores de metros quadrados bem mais baixos para imóveis comerciais quando comparados a grandes centros de negócios americanos; o fato de que a Flórida é uma porta de entrada fácil para a América Latina, oferecendo amplas oportunidades de expansão internacional; e o fato de Miami e Orlando serem centros business-friendly, que oferecem uma cultura de trabalho muito diversificada, são alguns deles.

Com a chegada de novas empresas, a imigração de pessoas ligadas a este fato também cresce, seja de funcionários que são transferidos junto com as companhias, seja de pessoas que vão atrás das novas oportunidades que se abrirão. Durante anos, o Sul da Flórida registrou um aumento populacional de mais de 900 pessoas por dia, mas a pandemia agiu como um catalisador de um dos maiores movimentos de migração já vistos na região.

Boom imobiliário

Com tantas mudanças, é notório que o fenômeno se reflita também no mercado imobiliário. Somente nos primeiros quatro meses de 2021, houve um aumento interanual de 39.8% nas vendas de imóveis. Bairros com boas escolas de classe média alta como Key Biscane e Bay Harbor, em Miami, e Weston e Pembroke Pines, em Broward County, há 30 minutos ao norte da grande Miami, já sentem a falta de oferta de imóveis para venda e aluguel. Com isso, a Flórida hoje já detém quatro dos cinco mercados imobiliários mais aquecidos dos EUA e mantém o nicho próspero, com uma taxa anual de valorização de imóveis de 6,58%. Somente Miami alcançou uma taxa de valorização total de 93.9% na última década, sendo a mais alta taxa da América.

Foto: Wirestock/Freepik

Segundo o executivo do setor imobiliário Gabriel Souza, do total de imóveis disponíveis em 2019, em 2020 – em apenas nove meses de trabalho, visto que nos três primeiros o mundo estava em lockdown –, houve uma redução de cerca de 1/3 nesta oferta. “Como se não bastasse, este índice ainda ficou mais acentuado em 2021 e o ano fechou com um resultado nunca visto antes, do menor número de inventário disponível em toda a história do sul da Flórida”, conta. “Em contrapartida, o preço de uma casa unifamiliar subiu de uma média de US$550 mil em 2019 para US$915 mil em 2021, quase o dobro em quase três anos”, relata Gabriel, que completa: “Diante deste cenário, o gigante imobiliário inglês The Knight Frank Report, em parceria com o Citibank, realizou uma pesquisa que mostra Miami como a cidade número um de valorização imobiliária global no ano de 2021, à frente de Seul (Coreia) e Shanghai (China)”.

De acordo com pesquisas conduzidas por grandes empresas ligadas ao setor de imóveis e contribuições de alguns economistas e analistas, o mercado imobiliário continuará crescendo em 2022. Os gargalos na cadeia de abastecimento serão corrigidos com o crescimento econômico contínuo e muitas empresas irão reabastecer seus estoques. Além disso, é provável que compradores que saíram do mercado por não acompanharem os preços altos e principalmente as disputas de ofertas, retomem as negociações. Outro fator importante que reforça a previsão de crescimento do mercado imobiliário é a elevação da economia nacional como um todo: a subida iniciada no terceiro trimestre de 2020 deve continuar em 2022 e a previsão da reserva federal para o crescimento econômico real é de 3,3%.

Aumento do custo de vida

Alguns impactos negativos já são sentidos pelos que vivem na Flórida. O processo crescente de migração causa efeitos indesejados e o principal deles é o aumento do padrão de vida. Com o crescimento imobiliário, valores de alugueis subiram e a dificuldade de encontrar moradias compatíveis com a renda aumentou entre a população local. Fato este que preocupa muitos políticos e ativistas locais, que veem como isso dificulta o acesso à moradia para famílias de trabalhadores e de classe média, em uma das cidades mais desiguais dos Estados Unidos.

Há ainda o custo elevado e crescente de alimentação, a piora no trânsito e o salário base do trabalhador na região, que mesmo com uma melhora de US$8 para US$11 por hora não é compatível com o custo de vida geral.

O advogado Alexandre Piquet, presidente da Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida, reconhece que, com a alta da migração, o perfil geral de consumo mudou e, com isso, um efeito cascata em vários setores da economia. “Foram mais de 330 mil pessoas que se mudaram para a Flórida, somente vindos dos outros 49 estados dos EUA e isso trouxe também uma pungência econômica, principalmente no estilo de vida, com destaque para a alta de preços de imóveis devido a maior procura e a quantidade de tempo versus estoque neste – em Miami Dade, por exemplo, só existe imóvel disponível para um mês neste ritmo de demanda. No Sul da Flórida, os preços de bens de consumo, principalmente de itens de luxo, também aumentaram muito. Um exemplo são as filas de espera para compras de carro e barcos – nunca se vendeu tantas embarcações na região como nos últimos tempos”, conta Piquet. “Não obstante a isso, tivemos no último mês, o menor número de pedidos de aplicação para novas hipotecas dos últimos dois anos, por alguns motivos: porque o número de ofertas de imóveis diminuiu bastante e porque os juros subiram, o que fez com que o mercado recuasse, apesar de que 40% dos consumidores não precisam de financiamento, mas os outros 60% que precisam ainda representam um número importante”, completa. “Apesar de restaurantes lotados, trânsito aumentado e outros fatores negativos, esta alta migração trouxe muitos negócios, ascensão econômica, ascensão de oportunidades de trabalho, as mudanças foram rápidas, é claro que isso causa disparates. Mas também, como vantagem, acredito que as coisas vão se equalizar e o Estado, sobretudo o Sul da Flórida, passará a ser visto como um centro econômico, financeiro, como nunca aconteceu antes. Todo este cenário contribuiu para um grande salto em prol de progresso, a Flórida tem tudo para não ser mais somente um destino de férias como era visto antes. Está no caminho para ser estabelecido e solidificado como um centro importante de negócios”, conclui.

Foto: Mek West/Pexels

Segundo o economista Abel Fiorot, os números oficiais comprovam a mudança: o custo de residências subiu em torno de 28% enquanto o aumento de salário ficou em cerca de 5%. O crescimento populacional projetado para o estado da Flórida é de 1,41% e a maior parte não é orgânico, e sim devido da imigração. No que diz respeito ao custo de vida, comparado com os EUA, e considerando o índice do país igual a 100, o índice da Flórida hoje é de 102,8 – o que comprova que a região está acima da média nacional. “Alguns profissionais do mercado dizem que, na verdade, viver na Flórida era mais barato e, agora, os números estão se igualando ao resto dos EUA, mas a verdade é que não tendo um estoque significativo de moradias e sendo este um dos itens mais significativos do orçamento doméstico, acontece o aumento do custo total familiar”, explica.

Incentivo político

O prefeito de Miami, Francis Suarez é um dos grandes entusiastas e incentivadores deste processo de migração. Atuante nas redes sociais, conversa diretamente com seguidores e faz ligações diretas a CEO’s e executivos que demonstram interesse em trazer seus negócios para a cidade. Sua frase “Como posso te ajudar?”, já virou bordão no mercado de tecnologia, por exemplo, após uma troca de tweets entre empreendedores do ramo viralizar.

Nomeado no vigésimo lugar na lista dos 50 Maiores Líderes da Fortune, Suarez, junto com os prefeitos de Miami Beach, Dan Gelber e a prefeita de Miami-Dade, Daniella Levine, acredita que o trabalho base de incentivo feito durante os anos anteriores contribuiu e permitiu que este movimento de crescimento acontecesse, mesmo em uma época tão incerta como foi no início da pandemia.

E quanto aos brasileiros?

A Flórida continua sendo o destino preferido dos brasileiros para morar no exterior. Um levantamento feito no final de 2021 por associações brasileiras de prestação de serviço de imigração mostrou que 8 a cada 10 pessoas que buscaram consultoria sobre o assunto escolheram o estado como destino.

Leidmar Lopes é pastor, psicólogo e presidente da Associação de Pastores Evangélicos Brasileiros nos EUA (APEBUSA). Vivendo há 36 anos nos EUA, ele conta que a percepção no aumento da comunidade brasileira foi notória. “Este crescimento já vinha acontecendo desde 2019, mas na pandemia percebemos que o grande motivo foi uma busca por um local onde as restrições estavam menos severas, como foi na Flórida em relação aos outros estados americanos”, conta. “Nas igrejas, também notamos este aumento. Como uma forma de apoio, o brasileiro que chega à Flórida, sempre encontra estas portas abertas – a maioria tem programas que ajudam imigrantes a se estabelecerem em suas novas casas, bolsas de emprego, doações de móveis, programas de aconselhamentos e acompanhamentos nas mais diferentes áreas. E um dos sinais mais visíveis do crescimento desta comunidade é o comércio brasileiro que voltou a crescer e está extremamente aquecido”, explica.

• A Flórida é atualmente o terceiro estado mais populoso, atrás da California e do Texas.
• O Censo de 2020 indicou que a Flórida tinha 21.538.187 residentes permanentes, um número ligeiramente inferior (57.881) ao inicialmente previsto.
• A taxa anual de crescimento populacional é de 1,41% ao ano.

Foto: Antonio Cuellar/Pexels

O que atrai os brasileiros?

Além de famoso pelo seu litoral paradisíaco e por seu clima praiano semelhante ao Brasil, a cultura de oportunidades de trabalho diversificada é um atrativo à parte. E com o crescimento de novos nichos e a chegada de novas empresas, muitos brasileiros que já tinham a vontade de se mudar para a Flórida, colocaram em prática seus projetos para aproveitar a vasta gama de oportunidades atual.

Neste cenário, o perfil do imigrante brasileiro ainda é favorável. Como grupo, a população é bem-educada e tem mais probabilidade do que outros imigrantes de ser proficiente em inglês. Dos brasileiros com 25 anos ou mais, 42% possuem pelo menos um diploma de bacharel (em comparação com 31% para todos os imigrantes e 32% para americanos nativos). Eles também têm rendas familiares mais altas do que os grupos de nascidos no exterior e nativos e participam da força de trabalho com taxas acima da média – cerca de 36% trabalham em ocupações de administração, negócios, ciências e artes, e 25% em ocupações de serviços.

Alessandra Alencar é uma destas brasileiras que não se intimidou com a pandemia e escolheu se mudar para a Flórida no início de 2021. Ela vivia em Boston e deixar a região já era um desejo antigo. “Tudo começou por causa do frio, que já não aguentava mais. Aí veio a pandemia, tudo fechou e ficou difícil manter o nível de vida em termos financeiros. Paralelo a isso, já tínhamos o sonho de morar na Flórida. Até que um dia, acordei decidida e indaguei o meu marido Joas, que topou a mudança”, conta. “Por aqui, tudo estava funcionando, mesmo que mais devagar. As pessoas mais felizes, trabalhando e se protegendo no meio da pandemia. Fez um ano que mudamos e não nos arrependemos em nada. Temos emprego, casa, amigos e um estilo de vida muito melhor”, completa.

O estilo de vida da Flórida é realmente um encantamento à parte para os brasileiros. Alessandra conta que, por mais que em Boston exista o estigma de um centro de negócios onde o dinheiro gira mais depressa, a correria do dia a dia não compensava. “Nós queríamos mais qualidade de vida e conseguimos, mesmo com uma renda bem semelhante ao que ganhávamos em Boston. Estamos bem mais felizes e com a certeza de que nunca é tarde pra recomeçar”, conclui.

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