Wal Reis

A gente precisa de alguém para dizer que vai passar

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Por Wal Reis

Até meus 8 anos, toda vez que sofria uma queda e avariava joelhos, braços ou cabeça, ficava esperando algum adulto do meu círculo familiar tomar uma providência prática – um curativo, um assopro ou um beijo, dependendo da gravidade do ocorrido –, que vinha sempre acompanhada da frase empática: “não foi nada, vai passar”. 

Não sei se era a solidariedade demonstrada com o acidente ou a confiança que, de pequenos, costumamos depositar nos mais velhos. O fato é que a dor ficava mais amena, mais tolerável e as lágrimas iam secando com a certeza de que aquilo não ia machucar para sempre.

Quando a pandemia começou, nos esforçamos para entender tanta mudança, tanta restrição, tanto “pode, mas não pode” porque, afinal, era uma questão de tempo e, com um pouco de resiliência, tudo voltaria a ser como antes em dias. Ou meses. 

Mas este tempo foi esticando e a saída estreitando. Aos poucos deixamos de ver luz no fim do túnel e os planos “para quando tudo isso acabar” começaram a soar patéticos. 

Ninguém aguenta mais reunião virtual, com todo mundo fazendo de conta que é divertido. Porque não é. Pode ter sido da primeira ou segunda vez. Depois ficou bobo. Assim como shows vistos de dentro do carro e festas de aniversário com duas pessoas.  

 Penso naqueles que morreram – não só de COVID, mas de velhice, câncer, coração – e não reexperimentaram a vida sem máscaras e com abraços. Sem álcool gel e com a casa cheia de amigos. Tão estranho sentir que foram embora antes do final deste filme de terror. 

E chegam alardes sobre novas ondas quando ainda nem nos reerguemos do caldo que tomamos das anteriores. E esta exaustão não tem nada a ver com falta de responsabilidade diante do caos porque boa parte de nós segue tentando viver dentro das regras, mesmo sem entendê-las direito. Mas estamos fatigados de ouvir que o pior ainda está por vir: nossa capacidade de armazenar o pior já está transbordando.

 Tudo isso assusta ainda mais a criança apavorada, que habita em cada um de nós e assiste tudo esperando que alguém venha em seu socorro, a embale e fale baixinho, mas com a firmeza de quem sabe do que está falando: “vai passar”. 

Porque ninguém quer duvidar, não. Nem quem diz que duvida. A gente quer, desesperadamente, acreditar que vai passar. E que, da mesma forma que os tombos da meninice, vai deixar marcas. Mas não vai machucar para sempre.

*Wal Reis é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br

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