Nilson Lattari

Crônica: Olhar nos olhos

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Por Nilson Lattari

Se olharmos para os olhos de um cão, que apenas a sua cara entre nossas mãos parece pedir nada, somente o brilho que ele representa é capaz de nos dizer tanta coisa, e parece acontecer uma conversa de mudos, dizendo um para o outro que o silêncio muitas vezes é melhor que tudo que se possa dizer. O cão quando tão somente cerra os olhos, ou os mantém vivos e abertos dizendo tanta coisa que nem precisamos compreender nada.

Se olharmos para um cego que não é capaz de nos ver, e suas mãos vão nos tocando, percorrendo cada desvio de nossa face, ele sorri e parece descobrir tanta coisa nossa, e somente tem ele o cheiro, o som, e dentro da sua solitária escuridão ele é capaz de desenhar, com a sua perfeição, nosso rosto e saber de nós muito mais do que achamos que sabemos de nós mesmos.

Somos desconhecidos, receptores de gestos carinhosos.

As redes sociais são um pouco disso. Afinal, quantos amores não se encontram entre pessoas que apenas se conhecem pelos olhares congelados das fotografias, ou se encantam apenas com as palavras, com uma misteriosa vida de outrem, de como é, como deve ser sua existência, que está muito mais dentro da escuridão da nossa solidão, em tentar encontrar uma felicidade que pode chegar embrulhada via internet, ou nas intermináveis horas da chegada de um avião ou de um ônibus. Ávidos pelo contato de mãos desconhecidas, de cheiros e sons de vozes diferentes.

O cão segue docilmente o contato de nossas mãos e, com inocência, alguns de nós se entregam a fantasias, ao inexistente, e não percebemos que inertes deixamos o melhor de nós para o desconhecido.

São cegueiras momentâneas, das entregas às fantasias que desmoronam o nosso melhor. O cão, na sua mente solitária, não deseja nada mais do que o carinho, mesmo que seja momentâneo. Ao cego cabe discernir aquele que está diante de si, com os cheiros, os sons e o toque das mãos.

Nossas cegueiras não nos devem fazer perder a humanidade, e como os cães se deixando entregar ao intrigante gesto de amar e, algumas vezes, cegos, apenas sentindo do outro o que ele é e não aquilo que procuramos na cegueira dentro de nós.

Foto: Photo by Soroush Karimi on Unsplash

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