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Os desafios do ensino à distância no retorno às aulas

Por Fernanda Tótoli

O ano letivo começou nos EUA e a adaptação para a nova rotina foi geral: escolas, professores, pais e alunos, todos se esforçaram para a retomada das aulas enquanto a pandemia ainda oferece riscos. Em grande parte da Flórida, as aulas começaram de maneira 100% virtual. Em Miami-Dade uma particularidade marcou o primeiro dia: mesmo com as melhores expectativas para a introdução de uma nova plataforma (o K-12), que seria uma única fonte de ensino para crianças do kindergarten à 120 série, o resultado não foi o esperado. No 31 de agosto, quando as aulas começaram, por problemas técnicos e ataques cibernéticos, o acesso ao site foi muito difícil ou quase impossível – situação que frustrou toda a comunidade escolar do distrito e gerou muitas dúvidas sobre como seriam as aulas a partir de então.

Konstanze Matuschke, conhecida como Kony, é mãe de uma criança de 10 anos na quinta série e contou como tudo aconteceu. “Em março, quando a pandemia chegou aos EUA, fiquei muito surpresa com a rapidez com que as escolas conseguiram passar, praticamente da noite para o dia, para o ensino online. As escolas públicas de Miami-Dade estavam muito preparadas, com computadores e tablets disponíveis para todas as crianças que não tivessem acesso ao equipamento em casa, e até mesmo serviço gratuito de internet para as famílias mais carentes”, conta. “Já agora, no começo do novo ano letivo 2020/2021, a expectativa era bem maior, pois sabíamos que o distrito estava trabalhando na introdução da plataforma K-12, que infelizmente apresentou problemas” lamenta.

Kony conta que, mesmo assim, muitos pais e alunos acharam que seria um problema somente nos primeiros dias, por se tratar de uma grande novidade. “No primeiro dia mesmo, graças à rede de apoio entre pais, conseguimos conectar diretamente à plataforma, e daí em diante a conexão já não era mais um problema. Claro, que a atenção dos pais teve que ser completamente dedicada às crianças durante as aulas, mas a partir do terceiro dia, todas as crianças na classe da minha filha já estavam 100% adaptadas à plataforma e adorando o programa”, explica. “Infelizmente, sei que não foram todos que tiveram a minha sorte de ter um grupo de pais em contato com as professoras, que foram muito proativas, e acredito que os comentários negativos da maioria foram a maior razão para a escolha pela remoção da plataforma”, completa. Em reunião extraordinário na noite do dia 09 para o dia 10 de setembro, o distrito escolar votou para o cancelamento do aplicativo e a volta das aulas pelo Zoom e Microsoft Teams, estratégia que tinha sido usada antes das férias.

Como em toda nova rotina, as escolas com o apoio dos pais e o esforço dos alunos, estão se adaptando aos poucos. Muito já se fala sobre datas previstas para a volta às aulas presenciais em Miami-Dade e, mesmo com esta liberação, pais e alunos poderão optar se vão à escola ou permanecem em casa assistindo às aulas remotamente. “Minha filha sente falta dos amigos e das professoras, mas prefere ficar em casa, para evitar a exposição e riscos. É claro que é muito mais trabalhoso para mim como mãe, e apesar de saber que as escolas estarão extremamente preparadas, me sinto mais segura assim. Já o meu filho de 19 anos que está no college, teve uma experiência bem diferente, ele consegue fazer tudo sozinho, mas vi a frustração dele. As suas notas foram um pouco afetadas com a mudança, ele ainda não consegue se acostumar com a experiência online e não vê a hora de poder voltar as aulas presenciais, mas concordou, após meu pedido, em ficar em casa também”, conta Kony. 

Para Márcia Silva, presidente da PIPA (Portuguese International Parents Association), fundação que apoia o programa de português na escola Ada Merritt K-8 Center com materiais didáticos e eventos culturais, toda a rede de apoio entre pais e professores foi fundamental para se reinventarem. “Mesmo virtualmente, continuamos a missão de apoiar a nossa escola”, conta. Mãe de três filhos – um menino no quinto ano e duas meninas pequenas na pré-escola e kindergarten, Márcia também sentiu em casa a pressão da mudança. Mas assim como Kony, prefere ter mais certeza da redução dos riscos antes que as crianças voltem às aulas presenciais. “Todos os pais do meu contato relatam dificuldade em conciliar a vida de trabalho e os estudos dos filhos. Mas mesmo com todo esse desafio, fico aliviada por meus filhos estarem com saúde”, explica.

Aline Armerique é mãe de duas crianças, de 5 e 10 anos e também relata a dificuldade de conciliar a nova rotina escolar com o seu trabalho na área financeira. “Ambos estão em um programa bilíngue de português. A adaptação à nova rotina de escola em casa não tem sido nada fácil, especialmente para minha filha que está aprendendo um terceiro idioma e tem pouquíssimo domínio de tecnologia. No caso do meu filho, o desafio tem sido a falta do convívio social com os amigos”, conta. “Além do papel de professora em casa, também precisei aprender a conciliar ‘as facilidades’ dos diferentes aplicativos de comunicação que temos usado para realizar todas as atividades. A grande compensação que tenho tirado dessa atual circunstância é receber aquele beijo inusitado, abraço apertado, tê-los constantemente ao meu lado sabendo que eles estão bem”, completa. “Não tenho dúvida que as crianças terão perda em relação ao conteúdo escolar, porém ao longo dos anos isso será recuperado. Um retorno escolar precipitado, poderia colocá-los em risco”, diz Aline.

A princípio, a superintendência teria divulgado escala de retornos que começariam no dia 30 de setembro (pré-escola e primeiro ano) até 07 de outubro (middle e high school) e a intenção dessa abordagem escalonada progressiva seria para permitir que as escolas testem seus protocolos de saúde e façam os ajustes necessários, planejamento que deve acontecer, mesmo com o adiamento da data. Mas após algumas reuniões, os conselhos escolares aceitaram retomar as aulas presenciais no dia 05 de outubro e o condado de Broward deve seguir as mesmas instruções. 

Independente de qual seja a decisão final, medidas de proteção já foram anunciadas pelo distrito, como o uso obrigatório de máscaras, inclusive nos ônibus escolares; distanciamento social de alunos nas salas em assentos separados por um metro de distância; almoço e lanches pré-embalados, além de sala de isolamento completa com uma enfermeira exclusiva por escola.