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Foi mais difícil ser solteiro durante a pandemia?

O isolamento pelo qual o mundo inteiro passou e as restrições sociais que ainda vivemos trouxeram diversas reflexões sobre relacionamentos.

Muito se falou sobre como casais lidaram com a pandemia, com a mudança de rotina que acarretou uma convivência por praticamente 24 horas sob o mesmo teto afetou algumas relações conjugais. O número de divórcios cresceu consideravelmente. A cada dia, surgem novas notícias de famosos que se separaram. Mas e os solteiros? Como lidaram com isso em grande parte de 2020? Estar solteiro(a) foi motivo verdadeiro de solidão? A carência emocional e sexual durante a quarentena provocou o crescimento de adesões aos aplicativos e sites de paquera virtual?

Para Katherine Zammuto, digital influencer e criadora de um canal de podcasts sobre relacionamentos, a grande mudança foi na vida social. “Era muito ativa eu saía praticamente todas as noites, tanto para compromissos de trabalho, como para eventos sociais”, conta. E quando o mundo entrou em quarentena, a quebra da rotina foi brusca, o que não necessariamente foi negativo. Katherine estava iniciando um relacionamento neste momento e acabou passando as seis primeiras semanas com seu parceiro. “Neste quesito, eu tive sorte, pois resolvemos aproveitar este ‘break’ para curtir a dois, ao invés de nos estressarmos com algo que não tínhamos controle”, relata. “Foi um período muito bom, apesar de o relacionamento não ter dado certo depois”.

A mesma mudança extrema de rotina foi sentida por Márcio Gomes, brasileiro do Rio de Janeiro que vive nos EUA desde 1989. Executivo de uma multinacional em software da indústria automobilística, Márcio conta que antes da pandemia também tinha uma vida social ativa e externa, gostava de sair para encontrar amigos e conhecer pessoas. “Agora estamos mais limitados a usar mídia social e aplicativos de paquera como meio de contato”, lamenta. “Embora eu conheça e até já tenha conhecimento destes aplicativos, confesso que ainda sou bem atrelado aos laços do passado. Prefiro contatos reais aos virtuais”, conta Gomes, sem descartar todas as possibilidades: “Nada impede que uma paquera virtual evolua para outros patamares”.

Opinião distinta de Katherine, que já se desiludiu com aplicativos de paquera e desistiu de usá-los como forma de conhecer novas pessoas. “Eu não gosto dos apps de paquera pois acho que a enorme maioria das pessoas neles são muito perfis falsos ou estão querendo um sexo casual e nada mais. Como já me queimei no passado, resolvi que este tipo de ferramenta não é para mim”, conta. “Até acho que é possível que uma paquera virtual evolua para algo mais sério, mas ainda assim é muito difícil. Continuo preferindo o tradicional olho no olho, encontros orgânicos”, explica.

Dois lados da moeda

Algumas pessoas se sentiram mais sozinhos durante a pandemia. Outras, aproveitaram o tempo livre para tirar do papel projetos pessoais e novos hábitos. As opiniões se divergem e não existe uma regra clara. Depende da forma como cada indivíduo controla suas emoções. Katherine é do time que preferiu ficar (e o destino ajudou) em casa com uma companhia, curtindo programas que gostavam e que deixou a rotina menos estressante. Márcio, embora dê valor a uma boa companhia, adora e preza pela liberdade no seu espaço.

Sobre a forma individual de como cada pessoa lidou com este processo, a psicóloga clínica Rosane Sprintzin contou que, de certa maneira, estar solteiro durante a pandemia pode ter sido sinônimo de mais solidão. “As pessoas tiveram que ficar confinadas e muitas não tinham um sistema de apoio, amigos que pudessem encontrar. Dificuldades em sair, conhecer pessoas, a rotina dos solteiros mudou e limitou possibilidades de encontro. Foi um fator que fez com que muitos, principalmente os mais jovens, até por falta de conhecimento em saber como lidar com este sentimento novo, se sentissem mais solitários”, explica.

Com mais de 30 anos de experiência, a psicóloga formada pela PUC-RJ e residente nos EUA há 40 anos, relata que em situações adversas, o comportamento de cada indivíduo tende a ser diferente de acordo com a faixa etária. “Os mais jovens passaram por uma paralisia emocional para lidar com a situação, como uma defesa. Já os mais velhos, mais experientes, puderam utilizar este tempo para o autoconhecimento – passaram a refletir sobre a vida, o que gostam de fazer, aprender coisas novas. Com isso, tiveram um aprendizado interno”, conta Rosane.

A mudança pela qual o mundo passou trouxe à tona várias questões pessoais internas e sobre relacionamento. Rosane explicou que isso não se aplicou somente aos solteiros. “Muitos casais não resistiram à pressão do isolamento. Pensamentos como ‘quero ou não ter filhos’, por exemplo, e a atual situação do mundo, fez com que muitas pessoas que tinham um compromisso afetivo reavaliassem se queriam mesmo continuar da mesma maneira”, conta. “Da mesma forma com que também abriu espaço para que as pessoas vissem que é bom ter um parceiro, mas também pode ser cada um na sua casa, sem a pressão de casamento, com cada indivíduo aprendendo a gostar do seu próprio espaço”, completa.

E isso também influenciou em outro aspecto: com a interação virtual fortalecida, a forma de ‘enxergar’ a relevância das relações pode ser afetada pós-pandemia. “Durante muitos meses esta foi a única maneira de contato com pessoas, um novo tipo de relação com o outro. Mas isso só agravou um comportamento já presente no dia-a-dia das novas gerações. As interações pessoais já estavam sendo afetadas antes, com o costume de se comunicar online. Nada substitui o encontro real, ao vivo, mas as relações já vinham sofrendo uma transformação, que somente ficou muito aguda com a pandemia”, conclui Rosane.