Wal Reis

Efemeridades

Contabilidade
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O único tempo que não encurta é o tempo presente. O tempo futuro vai estreitando na medida em que o tempo passado faz download . Mas não precisa ser triste. É só um alerta do tempo para você se apressar, largando pelo caminho projetos muito complicados, que não cabem mais no tempo restante, e investindo em sonhos sob medida, ideais para o tempo de ser feliz.

Rodei a caixinha amarela mais uma vez na mão. Pesada. Cinco mil grampos. Insisti com a vendedora, sem muita convicção:

– Tem certeza de que não tem menor?

– Não tem… – ela já demonstrava certa impaciência – custa só 8,90. Faço por R$ 8,00.

Mas não era o preço. Provavelmente, se ela tivesse uma caixa com a metade dos grampos por R$10,00 esta seria minha opção. Deixei a loja e rumei para a casa com a embalagem na mão. Cinco mil grampos. Aquilo não me saia da cabeça.

Eu grampeio folhas sazonalmente: documentos que vão para o escritório de contabilidade, outros que ficam para minha própria organização e ainda faço bloquinhos com sobras de papel. Em um mês, devo gastar seis ou oito grampos no máximo, contando aqueles que entortam dentro do grampeador e precisam ser descartados. Portanto, em 50 anos, a caixa de grampos ainda terá o produto disponível para mais algumas grampeadas.

O escritório não existirá mais. Nem a gaveta onde eu guardo o material. E provavelmente nem os documentos que eu grampeio e despacho como parte burocrática de minha rotina. E nem minha rotina. E nem eu. Acho que foi a primeira vez que senti a efemeridade de maneira tão palpável.

A estranheza de estar carregando algo tão simples e que duraria mais do que eu não era propriamente triste, mas levava a algumas reflexões sobre o tempo. O tempo restante.


Quanta coisa por fazer que já não cabem mais nesse intervalo entre o agora e o fim. Alguns, talvez, nem eram tão imprescindíveis assim, como andar de skate. Terminar de escrever um livro ainda é possível, mas posso esquecer minhas pretensões de mochilar pela Europa.

Outro dia me peguei folheando uma revista de vestidos de noiva e um pensamento adolescente tomou forma: “nunca vestirei um desses…”, suspirei. Impressionante. Quando foi possível usar um traje do gênero eu rechacei a ideia. Aquilo não era pra mim. Porém, agora, sem nenhum contexto que torne viável a vestimenta, bingo: o pensamento sabotador chega galopante.


Talvez o grande exercício seja este: nos livrarmos desse peso desnecessário de frustrações que, na verdade, nem são frustrações porque nunca foram incluídas na categoria de plano. Funcionam apenas como uma desculpa para transformarmos nossas vidas em um muro de lamentações. Da mesma forma, postergar projetos, fazendo com que dependam de terceiros ou de fatores alheios a nossa vontade é outra maneira ímpar de se sentir vítima e não fazer. E deixar pra lá.

Mas não sair do lugar custa caro porque os anos fogem da gente em velocidade de maratonista. E, uma hora dessas, ao abrir a caixinha de grampos, talvez só restem alguns, insuficientes para nos grampear de volta à vida.

*Wal Reis é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br

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