Nilson Lattari

Crônica: Uma bebida chamada derrota

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Por Nilson Lattari

Uma derrota é algo que ninguém quer ou aceita. É como uma bebida amarga que somos obrigados a tomar, diante de circunstâncias que fogem ao nosso controle, que esperamos ou não. É claro que as bebemos algumas vezes. É um líquido que corre forte enquanto engolimos, em seco, alguma adversidade.

Engolir em seco, engolir um sapo também podem ser por orgulho ou mesmo para sair em socorro de alguém. Quando abdicamos da nossa integridade, mesmo que seja em prol de algo maior, isso é sempre uma derrota. Não que nos sintamos humilhados por uma atitude nobre. Alguma coisa falhou para que tomássemos aquela atitude, aceitássemos aquela derrota. Sempre será uma bebida amarga para todos na mesma situação.

Somos derrotados de muitas maneiras e de muitas formas. E de muitas maneiras e de muitas formas aceitamos algumas derrotas, outras não.

Como beber dessa bebida amarga, diria o compositor?

Muitas vezes não é uma questão de aceitá-la, de se colocar na posição da escolha. As derrotas, como fazem parte da vida, devem ser aceitas como elas são. Isso será possível?

A aceitação é uma derrota. Independe da nossa luta, de sermos fortes ou não. E somos obrigados a engoli-la por diversas vezes, ao longo da nossa vida.

Quando a sofremos, segundo nosso controle, é possível preparar o coração para esse momento. Fora dele, o impacto é profundo e marcante. Mas, se as derrotas nos marcam, elas também podem nos fortalecer. Se enumerarmos, ao longo das nossas vidas, as derrotas que sofremos, veremos que essa coleção nos deu, também ao longo do tempo, um certo preparo para a vida. Porque só conhecemos a arte de viver quando sofremos as dificuldades diante dos obstáculos. São derrotas que nos tornam bêbados e insensíveis às adversidades. Essa bebida amarga que ingerimos, obrigados ou não.

Por outro lado, podemos recusá-la, a bebida. E se as derrotas são bebidas amargas que nos obrigam a beber, recusá-las, antes de tudo, é um ato de coragem. Sofre aquele que quer se abster de bebê-la, e lutando até o final das suas forças não pode se considerar um derrotado.

O bêbado que caminha trôpego pelas ruas é o próprio derrotado diante da vida que não pode ou não soube suportar. O derrotado é um pouco esse bêbado que tonteia pelas calçadas. O bêbado é um derrotado que encontrará a sobriedade na manhã seguinte. O derrotado é um bêbado que pode carregar seu infortúnio pelo resto da vida.

Recusar a derrota é não ceder à tentação da bebida amarga. Se o bêbado retorna ao seu hábito, ao cair da tarde, um derrotado jamais será um derrotado se não aceita a bebida amarga para continuar lutando.

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