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( votes)Por Nilson Lattari
O que poderia resumir a nossa humanidade? O que poderia defini-la? Não vou entrar nos conceitos antropológicos, sociológicos que poderão, cientificamente, definir e conceituar o termo. Gostaria de me referir a um sentimento chamado humanidade.
Quando olho o mundo animal, a primeira coisa que me salta aos olhos é a cadeia alimentar, onde os animais ora são os predadores, ora são os caçados, servindo de alimentação para os mais fortes, e se alimentando de outros mais fracos. Ou então aqueles que se alimentam fora do cardápio carnívoro e servem de alimentação para aqueles que o são.
Quanto a nós, humanos, isso não acontece, em relação aos nossos semelhantes, como ocorre em alguns casos entre os animais. Nos igualamos, no entanto, a eles, neste princípio, mas, no segundo, nos diferenciamos. O ser humano é o único animal que mata por vontade e por prazer. E, socialmente, pratica um outro tipo de atitude predatória, semelhante a uma cadeia alimentar entre semelhantes: a competição no mercado de trabalho, na luta pela sobrevivência em busca do dinheiro e do poder. Criamos homens-lobo, mulheres-leoa, ávidos nessa busca, muitas vezes praticando o cinismo, a mentira e a falta de ética, que se traduzem em “expertise” ou na adoção de uma meritocracia restrita a poucos eleitos por várias razões sociais, dentre elas a pura sorte.
Portanto, seríamos humanos e diferentes dos animais, por essa atitude animalesca que praticamos contra nossos semelhantes? Acredito que não é essa diferença perversa que nos faz humanos, mas desumanos.
Essa atitude de agressividade nos aproxima dos animais e nos torna menos humanos.
Então, o que poderia ser essa característica que faz a humanidade existir? Arriscaria dizer que seria o contrário dessa atitude que nos iguala. A nossa humanidade vem da própria dúvida e da consciência sobre nós mesmos.
Essa dúvida é o freio que limita a exacerbação da nossa violência. Para alguns, é a religião que contém uma boa parte da nossa agressividade ou a ciência tenta explicar por que somos agressivos. A ciência busca analisar os fatos e os processos da natureza, enquanto a religião tem como objetivo entender a natureza em relação à vontade de Deus.
Vivemos entre duas incógnitas, vivemos entre dois nadas. Esses são os limites da nossa agressividade. O que nos torna humanos é a dúvida. A ciência não consegue explicar o além da natureza. Se batemos os pés no chão e sentimos o piso de madeira, sabemos que ela vem de uma árvore, que nasce de uma semente, que veio de uma fruta, que por sua vez veio de outra árvore. Isso a ciência explica, o processo. A razão do ciclo existir vem da vontade de Deus, diz a religião.
Portanto, somos um ciclo da existência. Enquanto existimos, enfrentamos e fazemos tempestades, explicamos as tempestades, aprendemos a enfrentá-las. Porém, o ciclo da vida é de natureza desconhecida. Se soubéssemos a resposta que está no nada, seríamos completamente diferentes e totalmente humanos ou desumanos. Nossas atitudes como seres humanos se alterariam, descobrindo que existe algo além de nós, ou simplesmente que nada existiria. Essa dúvida é que nos torna humanos e contidos, o que nos torna desumanos é a existência daqueles que têm alguma certeza, mesmo sem base científica. Os que acreditam se entregam à religião e nas mãos dos profetas de ocasião, e para os que não acreditam o mundo pode ser apenas uma festa para se divertir e escravizar o outro.
A dúvida ainda é a nossa esperança de ter um mundo melhor, mais humano.
Foto de Greg Rosenke na Unsplash














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