Nilson Lattari

Crônica da semana: O QUE SOMOS CAPAZES DE FAZER

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Por Nilson Lattari

Nos filmes de faroeste, normalmente o pistoleiro faz marcas nas coronhas das armas enumerando as vítimas. Era uma contagem fúnebre, encadeando as mortes como quem faz compras no supermercado. Um operador financeiro compra e vende ações e títulos e contabiliza, no final do dia, as suas perdas e ganhos, assim como os agentes econômicos medem a sua capacidade de realização a partir do lucro que apuram no final do mês. Somos, portanto, desde tempos idos, capazes de fazer muitas coisas e as contabilizamos para saber onde estamos para poder galgar o degrau seguinte.

Medir nossas capacidades, a partir do lucro que temos, não chega a ser um grande mérito. Nesse caso, não mais a fama buscada através de mortes. Se somos capazes e temos a vontade de realizar coisas, entrar em uma aventura, a aventura em si e o plano estratégico que traçamos são as principais referências e os troféus que queremos obter.

Algumas vezes nos sentimos capazes de realizar alguma coisa e não a fazemos, simplesmente porque ela não é um produto que possa ser medido pela contabilização monetária, que tornará visível nosso sucesso ou insucesso. Na maioria das vezes, nos tornamos capazes de realizar coisas e as abandonamos em razão de elas não serem mensuradas pelo dinheiro.

Se colocamos o ganho monetário como nosso objetivo final, nossa capacidade não é reconhecida pelo trabalho em si, mas vista com bons olhos pelo dinheiro. Logo, a capacidade está no produto final: o lucro, o ganho. E a nossa capacidade de fazer algo de bom e relevante, senão para nós mesmos, por que não para a coletividade?

Quantas capacidades se perdem pelo mundo porque abandonaram sua real vocação para, simplesmente, tornar aquela atividade ou outra atividade, que esteja abaixo da nossa capacidade, em uma máquina de fazer dinheiro?

Se somos capazes de realizar alguma coisa e não a fazemos porque não dá dinheiro, é um meio caminho para a infelicidade. Infelicidade é a não realização dos nossos desejos, mas também a capacidade de romper com laços e abraçar sonhos. E sonhos são medidos pela capacidade que temos de fazer; se os reprimimos nos tornamos infelizes.

Quantos seres humanos pelo mundo deixaram de realizar seus desejos em troca de vida confortável? Sufocar nossa capacidade de fazer, difícil, posso dizer, diante do que o mundo material oferece, é a razão da infelicidade. Ninguém pode ser feliz sozinho, apegado a sua capacidade de fazer. Porque o reconhecimento faz parte disso. Logo, a capacidade é uma mão dupla, que transita entre dois lados opostos. Seria maravilhoso se medíssemos nossa capacidade pela quantidade de sorrisos e agradecimentos que recebemos. Sorrisos e gritos de satisfação não podem ser medidos por um câmbio qualquer.

Infelizmente, não vivemos em um mundo assim. E nos privamos de sorrisos e gritos de satisfação. O dinheiro estraga tudo. Estraga até mesmo a capacidade do próprio dinheiro de servir de trampolim para sorrisos e gritos de satisfação.

Em suma, quando provamos nossa capacidade, não devemos ficar contando essa capacidade como o pistoleiro que marca as vítimas na coronha. Simplesmente, deixamos a vida seguir o seu curso. É difícil, mas como isso seria bom para todos.

Foto de Miguel Bruna na Unsplash

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