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( votes)Por Nilson Lattari
Um jovem Dalit, de uma casta indiana considerada inferior (um grupo de pessoas encarregado de trabalhos considerados impuros), foi assassinado por membros de uma casta superior por ter a audácia de possuir um cavalo, símbolo de poder e riqueza.
Apesar de a constituição daquele país não discriminar seus habitantes pela casta à qual pertencem, na prática, não é o que acontece. O que nos faz questionar, além do crime em si, o que seria o símbolo de riqueza, ou o que incomodaria um grupo que se julga proprietário exclusivo de um bem, não permitir que o outro também o possua.
Ostentamos símbolos de riqueza, muitas vezes, de forma involuntária. Quando compramos o carro novo, não por ser novo, mas por ser uma forma de nos tornarmos diferentes no grupo, entre os vizinhos, entre os amigos etc. Colocamos a roupa da moda, escolhemos o melhor restaurante, mesmo que a roupa não seja diferente das demais, nem mesmo pela cor ou pelo modelo, mas por um símbolo qualquer que torne o bem caro, inacessível aos mais pobres, ou que a comida não seja muito diferente, às vezes pior, em relação àquela que comemos, prosaicamente, em nossa própria casa ou em uma pensão de boa qualidade. Estar exibindo a roupa ou aparecer no restaurante da moda não significa, na prática, nada, apenas estar com ela ou estar ali pode nos tornar diferentes, ou imaginamos assim.
E por que sentimos ou necessitamos dessa diferença? Na verdade, acredito que nem sabemos o porquê. Fazemos porque fazemos, porque os outros fazem e seguimos a onda, seguimos a manada. Ou seja, ostentamos símbolos de riqueza e somos tão pobres quando procuramos definir quem somos a partir da imagem de como os outros nos veem ou achamos que nos veem.
Ostentar símbolos de riqueza não nos torna ricos, óbvio, nem mesmo nos faz parecer ricos. A grande riqueza seria atingirmos um grau de desconsideração em que um sistema de castas sociais não permite enxergar o mundo a partir de perspectivas diferentes. É como nadar contra a corrente, ir na contramão do ideário, abrindo mão de conquistar, de ser quem ostenta a riqueza ou está na moda.
Que coisa rica seria andar no meio da multidão, esbarrando nos símbolos de riqueza, e encontrar alguém que pense assim.
Pode ser que exibamos os tais símbolos de riqueza por medo de não sermos mais apontados, reverenciados ou notados. Mas o outro lado pode não ser símbolo de pobreza e talvez seja um desprendimento de uma realidade fictícia.
As palavras do ex-presidente do Uruguai, Mujica, que prega o desapego ao consumo, soam mais fortes quando confrontamos os símbolos de riqueza. Esse seria o melhor caminho para evitar que massacremos os outros, para que nos distanciemos tanto da humanidade e não nos massacremos também. Não alimentamos símbolos de riqueza. Na realidade, alimentamos a criação de castas, e o passo adiante é massacrar aqueles que não podem exibi-los, para sermos, cada vez mais, supostamente, ricos e, na realidade, sozinhos.
Foto de Scottsdale Mint na Unsplash













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