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Homeschooling: dificuldades e novas formas de ensino

Por Fernanda Tótoli

Enquanto o formato de volta às aulas ainda é incerto em grande parte dos EUA, professores e pais continuam se adaptando à realidade do homeschooling (ou escola em casa), que já se tornou uma realidade no país desde o início da pandemia da Covid-19. Pais e professores tiveram que se adequar e lidar com o desafio das aulas e tarefas escolares das crianças em casa. 

A Acontece Magazine conversou com duas professoras brasileiras, com vasta experiência escolar nos EUA, que contaram um pouco de como sentiram a mudança e o que esperam do futuro. E ainda deram dicas de como a família pode ajudar no homeschooling e deixar a nova rotina mais prazerosa.

Beatriz Cariello é natural do Rio de Janeiro e vive nos EUA há 20 anos. Mestre em Língua Portuguesa, é co fundadora da Organização Americana de Professores de Português e ensina a disciplina na Ronald Reagan Doral Senior High School (onde implementou o programa há 8 anos). Ela conta que ninguém estava preparado para uma transição imediata de ensino presencial para remoto e que professores, alunos e os pais tiveram de se adaptar à nova realidade como puderam. “No dia 13 de março foi declarado o fechamento das escolas e no dia 16 do mesmo mês os professores já faziam cursos de capacitação profissional para uso de tecnologia e conhecimento das diferentes plataformas digitais. Corremos para nos familiarizar com o que fosse possível e ficávamos em frente à tela do computador por aproximadamente 17 horas diariamente. Os alunos se viram obrigados a organizar seu tempo de estudo e cumprirem com as responsabilidades impostas a esse novo sistema de ensino. O mesmo aconteceu com os pais e responsáveis, que tiveram de entender o processo, sentar com os filhos por várias horas para assistir às aulas, fazer deveres, estudar” conta. E as dificuldades foram muitas. Segundo Beatriz, muitos alunos tiveram dificuldades para se adaptar, situações que iam desde a falta de um lugar silencioso em casa para assistir às aulas, até adolescentes que precisaram trabalhar mais horas para ajuda em casa, deixando a escola como segunda prioridade. 

Dificuldades também sentidas por Cristiane Martins, brasileira que vive nos EUA há 25 anos e mestre em Educação Especial, com especialização em Orientação e Mobilidade para Deficientes Visuais. “Como atendo um aluno por vez, a maior dificuldade que enfrentei foi a de conseguir levar o ensino às crianças especiais para dentro da casa, com coordenação dos pais, já que a necessidade destas crianças é muito específica”, explica. Cristiane deu como exemplo o caso de um aluno cego e o uso de material em braile, que virtualmente não teria utilidade, pois necessita da presença física do orientador. “A solução que encontrei foi comprar uma máquina de braile que reproduz som do que a criança fazia e assim, mesmo do outro lado da tela, eu conseguia orientar e corrigir as atividades feitas”, conta. Cristiane é criadora de uma fundação totalmente gratuita, que disponibiliza o ensino da língua portuguesa e da cultura brasileira há 13 anos nos EUA. O projeto “Vamos Falar Português” é o carro chefe e hoje atende cerca de 600 crianças em seis pontos da Flórida e um em Orlando.

Futuro do Homeschooling

Embora ainda seja um grande desafio para educadores e pais, Beatriz tem boas perspectivas. “Muitas oficinas e cursos de formação sobre ensino remoto foram oferecidos e os professores se prepararam para essa nova realidade que vai durar ainda um bom tempo. É um momento e um futuro de muita aprendizagem e adaptação por parte de toda a sociedade”, reflete. “Passamos todo o verão trabalhando para assegurar um início de ano letivo motivador e de excelência para os alunos, visto que planejar se tornou um item extremamente importante neste momento que estamos vivendo”, completa. 

Cristiane reforça que, mesmo que o processo seja muito desgastante para os professores e pais, os profissionais de educação da Flórida ainda defendem o ensino à distância enquanto a pandemia não estiver controlada. “Aulas presenciais sem contato físico com crianças é quase impossível. É uma situação difícil, mas acreditamos que a saúde deve sempre estar em primeiro lugar”, explica. Na Flórida, as entidades de ensino optaram pelo início do ano letivo 100% online inicialmente e no final de setembro novas diretrizes devem ser anunciadas.

O que os pais podem fazer?

Para ajustar a nova realidade à rotina de casa, as professoras não têm dúvidas sobre a principal dica para tornar esse novo hábito menos desgastante para pais e responsáveis: criar uma rotina para crianças e adolescentes. “Acordar, tomar o café da manhã, vestir o uniforme e cumprir regras (como as de uma escola) vão ajudar muito o aluno nesta nova realidade”, explica Cristiane. “Valorizem e apoiem o estudo e os professores. Pais engajados e que trabalham junto com a escola vão nos ajudar muito a desenvolver este trabalho e garantir que o processo seja bem sucedido para todos”, completa Beatriz.

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