Nilson Lattari

Crônica: O CHEIRO DO TEMPO

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Por Nilson Lattari

Foto de Mulyadi na Unsplash

O tempo está por aí percorrendo os espaços como um ser que vaga, sem máscara (sem trocadilho, também), não se importando com os seres que fazem parte dele, vivendo sua atmosfera, envolvendo e carregando tudo e todos, ligados como uma corrente que se estende ao infinito.

Mas este ser não está presente apenas nas linguagens filosóficas, que tentam traduzi-lo e entendê-lo. Nós o percebemos de muitas maneiras. Com as marcas que temos no corpo e nas lembranças que guardamos. Não damos importância a algumas delas, no entanto, as sentimos em nosso íntimo. São os cheiros da sua passagem por nossas vidas. Afinal, quando passamos por algum lugar e sentimos um determinado cheiro, alguma coisa dentro de nós aguça nossas lembranças e nos leva a um tempo de antes. O cheiro da pipoca, o cheiro de uma roupa, o perfume de alguém ao nosso lado, a comida sendo elaborada, uma sensação de que vivemos aquilo antes. É como se uma determinada época passada viesse a nossa lembrança, nos lembrando que já vivemos aquilo antes.

O tempo é como um fantasma que vive nos rondando e nos avisando de que ele está ali, presente e passando e dando passagem.

Pois é, o tempo tem cheiro, sabor, som e toque. Precisamos desses sentidos para lembrar que o tempo passa, que o tempo passou mas nos deixou lembranças irreparáveis, que nos marcaram.

Não há como não associar esses sentidos à saudade. O cheiro do alho sendo frito para preparar o arroz, da roupa de alguém ausente, o gosto do café, do doce preferido na infância, o som do trem que passa ao lado e o toque de alguém em nosso corpo. São correntes elétricas que percorrem as nossas lembranças, disparando uma imagem em nosso cérebro.

De todas, o cheiro, para mim, é o mais gostoso. Poderia dizer que ele seja a voz que vem do passado, soprada levemente.

Basta fechar os olhos e o tempo voa no espaço etéreo da lembrança e essa voz que enche o ar de aromas revividos nos carrega no tempo. Mas o perfume chega antes, o cheiro é mensageiro apressado. Até porque a voz quando conserva o mesmo tom, a mesma suavidade é um cheiro de coisas vividas, quando dita ao telefone e ela, conservada, nos traz a imagem de alguém que não vemos há muito tempo. E sendo de alguém importante em nossas vidas a imagem presente é dispensável.

Sentir os cheiros e os sentidos não nos leva no tempo. Simplesmente, porque é o tempo nos carregando juntos. E o tempo é o pacote completo. O cheiro do tempo é o imaterial das nossas vidas. Quando olhamos paisagens modernas, se já vivemos em um tempo anterior naquelas paragens, é impossível não ver por dentro da fotografia a paisagem antiga que lá permanece e a nossa lembrança refazendo o novo. Assim são os cheiros.

Os cheiros e os sentidos são uma artimanha do tempo para uma viagem ao passado, porque ela não pode ser realizada de fato.

Eles são os confortos, são as saudades materializadas.

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