Nilson Lattari

Crônica da semana: “Ironia”

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Por Nilson Lattari

O ato de ser irônico exige um grau de inteligência, ou melhor, uma certa picardia (adoro essa palavra), essa pitada de pimenta que colocamos, sem querer querendo, no prato de alguém. Temos a grata surpresa de ver que o outro acusa o golpe, e quando não acusa a coisa fica melhor ainda.

Ser irônico é, antes de tudo, uma atitude artística, é aquela presença de espírito, como uma ferramenta que vem à mente e a gente a coloca no mundo como um filho que vai desarticular o próprio universo.

Ser irônico, portanto, nos atuais tempos é uma atitude perigosa e revolucionária. É como destabilizar alguém de sua bípede aparência, enquanto outros não caem porque têm nos quatro apoios, claro, a prudência.

Ironia é aquele ato que mostra, com claridade, o lado obscuro, como, por exemplo, limpar e desinfetar a estátua da liberdade em Nova York com produtos importados da … China, ou então visitar um amigo, proprietário de uma loja de manutenção eletrônica e encontrar na porta um aviso “Favor bater com força na porta, porque a campainha está quebrada”.

É claro que ser irônico é uma atitude, algumas vezes repetida, ou tentada, por aqueles que não têm a menor ideia do que seja, mas gostariam de ser. É quando está em curralzinho, cercado de fãs talvez sobre quatro apoios, e solta uma gracinha sem graça, e ri, tentando mostrar inteligência, ou rindo de si mesmo, porque seria a única coisa a fazer sentido: a autoflagelação do ego. Faz sentido?

É mais ou menos dizer que temos que consertar isso daí, ainda procurando dentro do vazio cerebral o que seria isso daí, mesmo que isso daí seja qualquer coisa menos… isso daí.

A doce arte da ironia nunca vem acompanhada de um sorriso. Ela vem acompanhada de um pequeno alçar da sobrancelha como a concordar com aquilo que sabidamente discorda, e o olhar é meio perdido como a dizer para si mesmo “o que diabos eu estou fazendo aqui”.

O irônico é também um ser antissocial por excelência. Ninguém gosta dele. Normalmente é rotulado de chato, inconveniente, intratável, arrogante, insensível, deselegante, malcriado, metido a sabido, mas, cá entre nós, é uma figura fascinante – diga-nos o Dr. House!

Pois é. Enquanto colocamos o irônico como personagem de um romance ou de um filme, e o estamos assistindo, somos irônicos ao ver como o sujeito irônico maltrata, e nós rimos, porque desejamos ser como ele, ou porque não estamos do outro lado.

A ironia chega à zombaria, chacota, deboche e esculacho, é uma arte tão nobre que deveria existir uma academia somente para ela: a academia dos irônicos, manipuladores da divina arte da sutileza.

A ironia tem um pouco de tristeza, de descrédito com o mundo e com a humanidade. O irônico é triste porque descobre o mundo como ele é, e deduz as pessoas como são, na realidade. A grande verdade do irônico é que sabe que vive no meio da torpeza, e de tanto responder a ela, com certeza, acha irônico ser uma maneira de sobreviver ao mundo reagindo com indelicadeza. 

Foto de Nathan Dumlao na Unsplash

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