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725 mil ou 2 milhões? Afinal, quantos brasileiros vivem nos EUA?

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Por que os números sobre brasileiros nos Estados Unidos variam tanto, e o que essa diferença revela sobre a força da nossa comunidade

Quem mora na Flórida conhece bem essa sensação. Basta entrar em uma padaria em Deerfield Beach, fazer compras em Orlando ou caminhar por bairros de Miami, Boca Raton, Doral, Pompano Beach, Kissimmee ou Windermere para ouvir português por toda parte. Os brasileiros estão nos restaurantes, nas igrejas, nas escolas, nos consultórios, nas imobiliárias, nos salões de beleza, nos pequenos negócios e nos grupos de WhatsApp do condomínio. A comunidade faz parte da rotina das cidades.

Por isso, quando alguém afirma que vivem cerca de 725 mil brasileiros nos Estados Unidos, muita gente estranha. Afinal, como uma comunidade tão presente pode parecer relativamente pequena nas estatísticas? A dúvida aumenta quando aparece outro número: mais de 2 milhões de brasileiros. Então, qual deles está correto? A resposta é simples: os dois. O que muda não é a quantidade de brasileiros, mas a forma como cada instituição faz essa contagem.

Segundo análise do Migration Policy Institute, baseada na American Community Survey (ACS) de 2024, realizada pelo U.S. Census Bureau, aproximadamente 725 mil pessoas nascidas no Brasil viviam nos Estados Unidos. Quando entram também pessoas nascidas em território americano que declaram ascendência brasileira, a chamada diáspora brasileira chega a cerca de 950 mil pessoas.

Já o Ministério das Relações Exteriores trabalha com outro critério. No relatório Comunidades Brasileiras no Exterior, ano-base 2023, o Itamaraty estima que existam 2.085.000 brasileiros vivendo nos Estados Unidos. À primeira vista, parece uma enorme contradição, mas ela desaparece quando entendemos que cada instituição mede uma realidade diferente.

Enquanto o sistema americano contabiliza principalmente quem aparece nas pesquisas oficiais do Census e atende aos critérios estatísticos da American Community Survey, o Itamaraty procura estimar toda a comunidade brasileira acompanhada pela rede diplomática e consular, incluindo pessoas que muitas vezes não aparecem nas pesquisas americanas. É justamente essa diferença de metodologia que explica por que os números parecem tão distantes.

Mais do que uma discussão estatística, trata-se de duas maneiras de enxergar a mesma comunidade. E essa diferença importa muito mais do que parece. Ela influencia o planejamento dos consulados, campanhas de informação, atendimento em português, pesquisas sobre imigração, investimentos privados, estratégias de comunicação, estudos acadêmicos e até a forma como governos, empresas e instituições dimensionam a presença brasileira nos Estados Unidos. Em outras palavras, número também significa visibilidade.

Afinal, quantos somos?

Segundo o U.S. Census Bureau, por meio da American Community Survey analisada pelo Migration Policy Institute, cerca de 725 mil brasileiros nascidos no Brasil viviam nos Estados Unidos em 2024. Considerando também pessoas nascidas nos Estados Unidos que declaram ascendência brasileira, esse total chega a aproximadamente 950 mil pessoas.

Já o Ministério das Relações Exteriores estima que existam 2.085.000 brasileiros vivendo atualmente nos Estados Unidos.

Os dois números estão corretos. Cada levantamento utiliza uma metodologia diferente e responde a perguntas diferentes. O Census oferece uma fotografia estatística baseada nas pesquisas americanas. O Itamaraty apresenta uma estimativa construída a partir das informações da rede diplomática e consular brasileira.

A Flórida ajuda a entender essa diferença. Segundo a leitura dos dados do Census utilizada pelo Migration Policy Institute, aproximadamente 23% dos brasileiros nascidos no Brasil vivem no estado, fazendo da Flórida o principal destino da imigração brasileira nos Estados Unidos. Já o Itamaraty estima cerca de 400 mil brasileiros na jurisdição do Consulado-Geral do Brasil em Miami e aproximadamente 190 mil na área atendida pelo Consulado-Geral em Orlando. Somadas, essas duas jurisdições chegam a cerca de 590 mil brasileiros vivendo na Flórida.

Para quem mora aqui, esse número dificilmente parece exagerado. Basta olhar ao redor. São brasileiros abrindo restaurantes, trabalhando na construção civil, comprando imóveis, atendendo em clínicas, vendendo seguros, criando empresas, organizando eventos, frequentando igrejas, matriculando os filhos em escolas americanas e ajudando novos imigrantes a dar os primeiros passos no país. A comunidade brasileira está presente na economia, na cultura e no cotidiano das cidades muito antes de aparecer em qualquer levantamento estatístico.

No caso de Orlando, o cônsul-geral João Lucas Quental Novaes de Almeida já destacou, em entrevista ao portal Nossa Gente, a importância da comunidade brasileira atendida pelo Consulado-Geral do Brasil em Orlando, responsável por uma extensa região do centro e norte da Flórida. O Brazilian Times também publicou estimativas comunitárias que situam a população brasileira no estado entre 500 mil e 600 mil pessoas. Em Miami, o embaixador André Odenbreit Carvalho é o cônsul-geral do Brasil, mas a estimativa de cerca de 400 mil brasileiros na jurisdição de Miami vem do relatório do Itamaraty e não de uma declaração pessoal do diplomata.

Essa diferença entre os números não é novidade para a Acontece Magazine. Há anos a revista acompanha o crescimento da comunidade brasileira e os desafios para medir seu verdadeiro tamanho. Em reportagem publicada em 2022, Monica Ribeiro, então presidente do Comitê Brasileiro de Apoio ao Censo, explicou que muitos imigrantes deixam de participar das pesquisas americanas por medo, insegurança, desconhecimento da importância do Censo ou dificuldade de se identificar nas categorias raciais e étnicas utilizadas pelos Estados Unidos. Na mesma reportagem, Andrea Faria, então presidente do Conselho de Cidadãos da Flórida, destacava Broward, Orange County, Miami-Dade e Palm Beach entre os condados com maior presença de brasileiros.

Os dados históricos também ajudam a entender quem forma essa comunidade. Na mesma apuração baseada na American Community Survey de 2019, os brasileiros apresentavam renda média anual de US$ 57.453, muito próxima da média americana de US$ 59.227. O levantamento mostrava ainda que 91,7% tinham ensino médio completo e 40,8% haviam concluído o ensino superior, indicadores que reforçam o perfil de uma comunidade economicamente ativa, empreendedora e cada vez mais integrada à sociedade americana.

Em outra reportagem publicada pela Acontece, em 2019, o pesquisador Alex Guedes Brum, autor do livro Brasileiros no Exterior: O Caso da Flórida, já chamava atenção para uma limitação importante das estatísticas americanas: elas dificilmente conseguem retratar toda a população brasileira, especialmente pessoas em situação migratória irregular ou que evitam responder pesquisas oficiais. Na mesma matéria, Álvaro Lima, então diretor de Pesquisa da Prefeitura de Boston, lembrava que a Flórida já concentrava aproximadamente um quinto da imigração brasileira para os Estados Unidos e liderava também o número de empresas abertas por brasileiros.

O mesmo fenômeno pode ser observado em Massachusetts. Enquanto o relatório do Itamaraty estima cerca de 420 mil brasileiros na jurisdição do Consulado-Geral do Brasil em Boston, um estudo da Boston Foundation, baseado na American Community Survey de 2022, calcula aproximadamente 139 mil brasileiros vivendo no estado. O próprio estudo reconhece que, utilizando metodologia semelhante à adotada pelo Itamaraty, essa população poderia chegar a cerca de 348 mil pessoas. Mais uma vez, a diferença não está necessariamente na quantidade de brasileiros, mas na metodologia utilizada para contá-los.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quantos brasileiros vivem hoje nos Estados Unidos, mas quantos conseguem ser vistos pelas estatísticas. Uma comunidade subestimada tende a receber menos atenção, menos investimentos e menos representação. Uma comunidade bem dimensionada fortalece sua voz, amplia sua influência e ajuda governos, empresas e instituições a entenderem melhor suas necessidades.

É exatamente isso que os números revelam. Os brasileiros que vivem nos Estados Unidos não são apenas uma estatística. São pessoas que trabalham, empreendem, pagam impostos, compram imóveis, estudam, criam filhos, participam da economia local e mantêm viva a cultura brasileira mesmo longe do país de origem. Estão presentes nas escolas, nos hospitais, nas igrejas, nas universidades, nas empresas e nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinquenta estados americanos.

Talvez nenhum levantamento consiga retratar toda essa realidade sozinho. Mas compreender por que esses números são diferentes já é um passo importante para enxergar a verdadeira dimensão da comunidade brasileira nos Estados Unidos.

Fotos: Ilustração: IA / Acontece Magazine

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