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( votes)A Seleção está nos Estados Unidos, mas para muitos brasileiros a verdadeira festa acontecerá em casa, entre amigos, churrascos e encontros que vão muito além do futebol.
Quando a Copa do Mundo foi confirmada nos Estados Unidos, muitos brasileiros imaginaram que finalmente teriam a oportunidade de assistir à Seleção de perto. Afinal, pela primeira vez, o maior evento do futebol mundial aconteceria praticamente no quintal de casa de milhões de brasileiros espalhados pelo país.
A Seleção Brasileira já está em solo americano. Os treinos começaram, os estádios se preparam para receber torcedores de todas as partes do mundo e a expectativa cresce a cada dia. Mas, ao conversar com brasileiros que vivem na Flórida, a Acontece Magazine encontrou uma realidade curiosa. Quase ninguém falou sobre esquemas táticos, escalações ou favoritos ao título. A maioria falou sobre amigos, família, churrasco e encontros. Talvez porque, para quem vive longe do Brasil, a Copa continue sendo muito mais do que futebol.
A Copa de 2026 será a maior da história. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o torneio em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Para muitos brasileiros, existe algo especial em saber que a Seleção está tão perto. Não é preciso atravessar um oceano nem planejar uma viagem internacional. Em alguns casos, basta entrar no carro. Mas nem sempre estar perto significa ter acesso.
O Brasil na Copa
O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 13 de junho contra Marrocos. O segundo compromisso da Seleção acontece em 19 de junho diante do Haiti. Encerrando a fase de grupos, a equipe enfrenta a Escócia no dia 24 de junho.
A campanha tem um significado especial. O Brasil segue como a única seleção presente em todas as edições da Copa do Mundo e chega ao torneio em busca do hexacampeonato.
Independentemente dos resultados, a expectativa é de que milhares de brasileiros acompanhem a equipe ao longo do torneio, seja nos estádios, em eventos públicos ou em encontros organizados pela própria comunidade.

Durante as entrevistas, uma frase chamou atenção. “Triste estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe da Copa”, resumiu Silvana Mandelli, moradora de North Miami Beach. A observação poderia ter sido feita por vários outros entrevistados. Praticamente todos mencionaram a mesma questão quando perguntados sobre a possibilidade de assistir aos jogos nos estádios: o preço dos ingressos.
Durante a apuração desta reportagem, a Acontece Magazine consultou o portal oficial da FIFA. Naquele momento, partidas em Miami apareciam anunciadas a partir de aproximadamente US$ 1.750. Para jogos da Seleção Brasileira, os valores divulgados começavam em torno de US$ 3.200. Porém, ao avançar no processo de compra, a opção mais econômica encontrada pela reportagem estava próxima de US$ 9 mil por pessoa. Na final da Copa do Mundo, a opção de menor valor disponível naquele momento estava na faixa de US$ 35 mil por pessoa.
Os valores podem variar de acordo com disponibilidade, categoria e pacotes oferecidos pela FIFA. Ainda assim, ajudam a explicar por que tantos brasileiros decidiram viver esta Copa de outra maneira.
Curiosamente, ninguém demonstrou menos entusiasmo por causa disso. Apenas mudaram os planos. Foi talvez a maior descoberta desta reportagem.
Quando os estádios ficaram distantes do orçamento de muitos torcedores, os brasileiros fizeram o que sempre fizeram bem: criaram seus próprios lugares para torcer. Em Miami, grupos de amigos organizam encontros para acompanhar os jogos. Em Boca Raton, famílias planejam assistir às partidas reunidas. Em Boynton Beach, churrascos já estão sendo preparados para cada rodada. Em Orlando, um grupo decidiu revezar as casas durante o torneio.

Alguns compraram televisões maiores para instalar na área da piscina. Outros alugaram casas para receber amigos durante a competição. Houve até quem transformasse a própria residência em ponto oficial de encontro da torcida. As respostas vieram de cidades diferentes, profissões diferentes e realidades financeiras diferentes. Ainda assim, a conclusão foi surpreendentemente parecida: mais importante do que o lugar do jogo era a companhia.
Todo mundo virou dono de estádio
Quando os preços dos ingressos afastaram muitos torcedores das arquibancadas, os brasileiros encontraram uma solução bem mais familiar: criaram seus próprios estádios.
Tudo começou quando uma das entrevistadas brincou dizendo que sua casa seria o “Estádio Valéria Trauer” durante os jogos da Seleção. A ideia acabou resumindo um sentimento que apareceu repetidamente nesta reportagem.
Poucos dias depois, outro convite chegou à redação da Acontece. Desta vez, os anfitriões Daniela Modesto e Mario Cerqueira anunciavam os jogos da Seleção no “Esporte Clube Modesto Cerqueira”. Entre brincadeiras, churrascos e encontros, a criatividade dos brasileiros encontrou uma forma própria de viver o Mundial.

Em diferentes cidades da Flórida, brasileiros estão transformando salas, quintais, áreas de piscina e churrasqueiras em pequenas arenas particulares para reunir amigos e familiares durante a Copa. Uns terão churrasco. Outros pizza. Alguns serão movidos a caipirinha. Outros a café e pão de queijo. Alguns vão reunir meia dúzia de amigos. Outros cinquenta pessoas.
No fim das contas, pouco importa o nome do estádio. O que importa é quem estará na arquibancada.
Durante a apuração, uma reflexão apareceu diversas vezes, ainda que expressa de maneiras diferentes. “Prefiro estar com pessoas que têm a ver comigo”, comentou Silvana.
“O diferente nesta Copa sou eu”, disse Paulo de Souza, de Orlando. “Hoje me importo mais com quem vai assistir comigo do que com o jogo em si.”
A mesma percepção apareceu em vários depoimentos. Entre eles, o de Antonio Martins, editor da Acontece Magazine e participante desta pesquisa informal.
“Mesmo que eu pudesse ir, talvez preferisse estar com meus amigos. Eu não gostaria de estar em um estádio cheio de gente e vazio de amigos.”
A frase resume um sentimento que apareceu diversas vezes ao longo desta reportagem. Para muitos brasileiros, a experiência parece estar menos ligada ao local onde o jogo será assistido e mais às pessoas que estarão por perto.
O que ouvimos dos brasileiros
A Acontece Magazine ouviu brasileiros residentes em Miami, Coral Gables, Boca Raton, Boynton Beach, Miramar, Lake Worth, Orlando, Key Biscayne e North Miami Beach. Apenas um entrevistado confirmou presença em jogos nos estádios. A maioria pesquisou ingressos, mas considerou os preços muito altos. Quase todos pretendem assistir aos jogos com amigos ou familiares. Churrascos, encontros em casa e festas privadas apareceram mais vezes do que estádios. O principal motivo citado para acompanhar a Copa continua sendo a oportunidade de reunir pessoas.
Para muitos brasileiros, esta também será a primeira Copa vivida fora do país. É o caso de Marlene, moradora de Miramar.
“Vamos ver se aqui o clima será tão bom quanto lá.”
A dúvida faz sentido. No Brasil, a Copa invade ruas, empresas, escolas e bairros inteiros. Nos Estados Unidos, a experiência tende a ser diferente, menos espontânea e mais organizada. Mas não necessariamente menos intensa. A diferença é que boa parte dessa energia estará concentrada dentro da própria comunidade brasileira.
Ao longo das entrevistas, uma conclusão apareceu naturalmente. Ninguém falou apenas sobre futebol. As pessoas falaram sobre encontros, amizade, família e a oportunidade de criar novas memórias.
Talvez alguns brasileiros guardem na memória um gol, uma defesa ou uma vitória. Outros vão lembrar da mesa cheia, do churrasco que entrou pela noite, da televisão ligada na varanda, do grupo reunido na área da piscina ou dos amigos que não viam há meses.
Para muitos dos entrevistados, a maior lembrança desta Copa talvez não venha das arquibancadas, mas das pessoas com quem escolheram vivê-la.
O Mundial de 2026 será disputado em estádios espalhados pelos Estados Unidos, Canadá e México. Mas, para boa parte da comunidade brasileira, ele já começou em outro lugar: na casa dos amigos, ao redor da churrasqueira, em frente à televisão e cercado por pessoas que fazem qualquer jogo valer a pena.
Porque, no fim das contas, mais importante do que onde assistir é com quem assistir.

Foto: AdobeStock













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