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( votes)Por: Aline Mara Gumz Eberspacher
Por que amar ficou mais difícil na era da exposição constante
Basta abrir as redes sociais para perceber como o amor passou a ser exibido. Casais apaixonados, declarações públicas, cenas cuidadosamente produzidas e uma felicidade quase sempre performática ocupam o espaço do que antes era vivido de forma mais íntima. Esse excesso de exposição, que se intensifica em datas simbólicas como o Valentine’s Day, ajuda a revelar um paradoxo do nosso tempo: nunca se falou tanto de amor e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil construir vínculos afetivos duradouros.
Diversas pesquisas e relatos indicam que, apesar dos avanços sociais e científicos, os vínculos amorosos parecem estar mais frágeis, refletindo um cenário que atinge muitas pessoas, independentemente de beleza ou status social.
Mas por que está tão difícil criar laços sólidos e confiáveis? Se para a geração dos baby boomers o amor era celebrado em canções e festas, hoje ele muitas vezes parece ultrapassado, até “demodê”. Havia uma valorização das palavras românticas, da demonstração de carinho e da cumplicidade entre os parceiros, sem a necessidade de expor o relacionamento nas redes sociais. E esse é um dos principais motivos apontados, especialmente pelos jovens: a falta de confiança. A desconfiança se instala e muitos têm medo de se entregar a um relacionamento verdadeiro. O excesso de exposição da intimidade nas redes sociais gera insegurança ao se envolver afetivamente. Além disso, falar de sentimentos e demonstrar amor passou a ser, em alguns contextos, motivo de chacota.
As formas de se relacionar também mudaram. Para muitos, a monogamia deixou de ser regra, e o poliamor passou a ser uma possibilidade, assim como a escolha por morar juntos ou separados. Isso faz com que encontrar um parceiro que compartilhe objetivos e valores semelhantes se torne um desafio ainda maior, aumentando a insegurança no momento de se relacionar afetivamente.
A ascensão feminina no mercado de trabalho também reconfigurou as dinâmicas amorosas. As mulheres tornaram-se independentes, autônomas e menos propensas a manter relacionamentos apenas por necessidade financeira. Uma pesquisa da BBC revelou que, para não permanecerem sozinhas, muitas mulheres estão aceitando parceiros com menor escolaridade ou renda. Segundo a reportagem, quanto mais as mulheres avançam profissionalmente, “se casar para baixo” passou a ser a alternativa possível. Esse fenômeno, conhecido nas ciências sociais como hipogamia, tem sido amplamente discutido e expõe o descompasso entre expectativas sociais e realidades afetivas.
Outro fator que contribui para esse cenário é a expectativa irreal projetada sobre o outro, o desejo de um parceiro “instagramável”. Espera-se que o parceiro ou parceira seja bonito, inteligente, financeiramente estável, romântico, bem-humorado, e a lista segue. Esse nível de exigência gera frustração e ansiedade, pois não há espaço para a imperfeição ou para o crescimento conjunto dentro da relação.
As redes sociais surgem, assim, como um dos elementos centrais dessa discussão. Elas permitem o compartilhamento de momentos da vida pessoal, mas a exposição excessiva tem seu preço. A busca por validação, a comparação constante com os outros e a necessidade de sustentar uma imagem de felicidade acabam distorcendo a vivência real dos relacionamentos. Em vez de fortalecer os vínculos, muitas vezes contribuem para sua superficialidade.
Em suma, os relacionamentos amorosos enfrentam desafios inéditos na contemporaneidade. A influência das redes sociais, as mudanças nos papéis de gênero, o excesso de expectativas e a falta de confiança têm tornado o amor mais difícil de ser vivido de forma genuína. Falar de amor pode até parecer antiquado para alguns, mas talvez seja justamente o resgate desse sentimento, em sua forma mais simples e verdadeira, que ajude a reconstruir laços que andam tão frágeis.














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