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Acontece Magazine
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A viagem no tempo

A viagem no tempo
A viagem no tempo

Cônica por Nilson Lattari

Arrumando o armário, por esses dias, uma quantidade de negativos caiu sobre mim, e me perdi revendo fotos antigas. Aliás, nestes tempos tecnológicos, é bom esclarecer que: negativo é essa coisa escorregadia que fazia o papel do moderno back up nas fotografias tiradas antes da era digital. Quando perdíamos uma fotografia corríamos atrás dele para restaurar a memória de pessoas queridas, viagens e essas coisas.

E é escorregadio, deve ser guardado dentro das capas protetoras para ficar livre de arranhões, impressões digitais, gorduras que podem alterar a cor e a qualidade das fotos. Guardando as devidas proporções o mesmo cuidado que é aconselhado aos CDs e DVDs. Falo que deve ser guardado porque ainda existem alguns admiradores que enxergam, naquela forma de fotografar, algo de romântico e artesanal.

Mas as semelhanças curiosas param por aí. Depois delas vêm as fotografias de fato. Os registros temporais cuidadosamente guardados em álbuns, e mostrados às visitas, às namoradas quando chegam pela primeira vez nas casas, e querem conhecer o namorado de antes, suas vidas, seus passeios, suas ex (Por que não?), e vice-versa, naturalmente, sob risos e lembranças.

Esse antes, o manipular dos então positivos, é que é o nosso assunto. Manipular fotos é viajar no tempo. Não basta, tão somente, olhá-las, imaginá-las, mas perceber que os personagens, as paisagens, o como eram antes, parados, sorrisos paralisados no “make cheese”, poses estudadas, cenários escolhidos, todos ajuntados para caber no quadro, o registro em único flash, significam a verdadeira viagem no tempo.

Me perco observando não o que está nelas, mas o que está por trás delas. O que pensaria aquela pessoa naquele instante? Jovem ainda, o que esperaria do futuro? Como pano de fundo uma cena urbana, flagrada para decorar a foto, comprovando a estada em um determinado lugar, testemunhando uma cena inusitada, uma roupa estranha; as pessoas atrás andando distraídas, pensando lá em algo sobre suas vidas, sem imaginar que os seus pensamentos, os seus andares ficarão registrados no tempo, levados para lugares longínquos, sem imaginar que outras pessoas, em outras culturas, as estarão olhando, e imaginando seus afazeres, fazendo comentários e deitando olhares curiosos, sendo apontados por outros.

Quantos de nós não estaremos nos registros de viajantes que passaram por nossas terras, levaram nossa impressão, que nossas roupas, maneiras de andar, hábitos vão representar em outros lugares a norma de comportamento de todo nosso povo. Somos incógnitos e ao mesmo tempo reveladores e revelados.

Antes do advento da tecnologia fotográfica digital e a sua fácil reprodução, em tempos idos, bem poucos tinham acesso aos apetrechos fotográficos. E esses registros se tornam para o futuro documentos únicos, que nos trazem ou nos levam ao passado.

O que me distrai vendo essas fotos é me imaginar caminhando por aquelas ruas, conversando com aquelas pessoas, fazer, criticamente, uma comparação com seus modos de vida, rir, interiormente, sobre suas crenças que o futuro poderá ser, o que poderá acontecer. E, ao mesmo tempo, poderia dizer-lhes que muitas daquelas esperanças vãs não se concretizarão. Talvez, a viagem no tempo seja impossível, e tomara que seja. Seria desconcertante tirar dos nossos antepassados as esperanças nas soluções dos problemas sociais, políticos, assim como não gostaríamos que alguém nos viesse dizer que o futuro nada tem de diferente. E que, com a abundância de registros fotográficos, gravados dessa vez na web, acessível ao mundo todo, imaginar, lá na frente, que o passado era muito mais gostoso e a Terra era um lugar melhor de viver.

E o mundo caminhando igual, deixando registrados os sorrisos de confiança.

 

A chuva

A chuva
A chuva

Crônica por Nilson Lattari

Existe algo mais democrático do que a chuva? Ou tão democrático quanto ela? Ela pode chegar de mansinho e derramar suas lágrimas igualmente. Ela pode chegar torrencialmente e afogar a todos, quer sejam ricos ou pobres, ela arrasta desde a mansão mais nobre ou o barraco mais pobre.

Quando alaga não interessa a ela se as coisas que destrói sejam decorações de palácios ou casas médias ou pobres.

A água se imiscui pelas reentrâncias e nenhum poder a impede. Ela não se deixa conduzir quando a sua índole, o seu fazer natural lhe domina, e a natureza vingativa retoma aquilo que lhe foi roubado, ou é festejada quando chega ao solo seco e despeja dos telhados uma alegria que é festejada pelas ruas, com as pessoas a se banharem.

A chuva se anuncia, algumas vezes é saudada ou bem-vinda, e, às vezes, é temida, é mal vinda, e não importa a origem dos olhares que a enxergam.

Ela se anuncia num repente como a chuva de verão que nos surpreende. Ou é antevista pelos relâmpagos e trovões a iluminarem o céu.

A chuva transborda os rios, alaga as ruas, enche os reservatórios, as represas, e se transforma em riqueza que traz a água que nos mata a sede ou a intempérie furiosa que arrasta na noite, sejam ricos, pobres, brancos ou negros, todos à procura de proteção.

Para os desertos é coisa rara, para as florestas abundância, pune com suas regras aqueles que desmatam, e abençoa aqueles que peregrinam nas areias, e valorizam a água como tesouro descoberto.

O aprendizado da chuva é enorme, nas plantas que agradecem, no solo seco que rejuvenesce, no viajante que enfrenta a mudança, porque depois da tempestade vem a bonança.

Quanta coisa nos traz a chuva, e, no entanto, são somente as nuvens a espremer o que lhes trouxe o sol. Quanta coisa nos traz a chuva e, no entanto, é apenas água que cai do céu.

Foto: Mitodru ghosh - Unsplash

 

Amantes

Amantes
Amantes

Crônica por Nilson Lattari

Não eram tão jovens, alguns diriam que beiravam a meia-idade, esta idade que não está em lugar nenhum, uma fronteira imaginária onde não se está mais na juventude, tantas vezes louvada, e a velhice, a terceira e inventada idade, que não se sabe a razão de existir, como se as idades fossem escalas, e não apenas o futuro que finalmente chega, como chegará para qualquer um.

Não tinham beijos efusivos, mas se acariciavam na penumbra dos gestos escondidos, em uma timidez que a juventude pede, dos encontros furtivos, de olhares escondidos, como se tivessem, na economia de carícias, uma reserva de febres de amarem e ficar juntos.

As mãos não tão lisas, dessas lisas onde escorrem o prazer, o tocar de pele, mas tinham a sede da procura, que as marcas do tempo são sinais de aprendizado nas linguagens que o coração enternecem. E o admirar os corpos é um ver para além do tempo, é o olhar manso que aprendeu que a luta contra o tempo, a pressa apressada, é perder cada pedaço que um ao outro oferece. O andar é vagaroso, para que a chegada fique por muito mais tempo distante. Mas, tem o mesmo compasso dos enamorados que se tocam levemente, apenas pelo prazer de sentir o corpo e o olhar ardente que, por vezes, parecem olhares perdidos na paisagem, e que no fundo é a busca pelas palavras que venham a aquecer mais o encontro, com os assuntos, os sorrisos e risos engraçados.

Quando se sentam, para poucos poderiam dizer que, naquele banco, muito tempo atrás tinham jurado. E olhavam, e as mãos passavam, nas marcas que deixaram no tronco de uma árvore. Eram duas flechas e um coração apaixonado, as iniciais ainda gravadas, de forma inteligível, mas que para os dois eram visíveis, no tempo passado e no presente, e guardavam os mesmos significados.

Os olhos ainda brilhavam, desde quando se separaram e a história se perdeu, cada qual para o seu lado, cumprindo as suas rotinas, a lembrar, todos os dias, os motivos do por que não continuaram juntos na vida. E agora comemoravam, finalmente, o dia em que poderiam responder às dúvidas que ficaram em cada um.

Foto: morguefile.com

 

De volta para o aconchego

De volta para o aconchego
De volta para o aconchego

Cronica por Nilson Lattari

Aconchego é chegar a algum lugar, seja na porta de casa, na presença da pessoa apaixonada, no coração querido. Aconchego é a reza escondida que conforta a alma, declamada baixinho no silêncio do quarto, são as palavras que jogamos no alto, na esperança de Alguém que desejamos que exista, que as receba em Seu colo e nos atenda, porque nos aconchegamos a Ele sempre nos momentos mais precisados e também naqueles preciosos quando conquistamos o nosso desejo guardado.

Aconchego está no aceno de longe, quando somos reconhecidos entre muitos, na multidão, quando aquele sorriso se expande à vista da nossa simples presença, descendo de um ônibus, de um avião, vindo de algum lugar distante. Está no correr para os abraços, nos risos, nos deboches engraçados que fazemos com aqueles que amamos.

É bom quando voltamos para o aconchego, porque é como se aquele lugar nunca nos abandonasse, seja uma paisagem, que guardamos desde criança, um simples cheiro de flor, em um jardim onde encontramos nosso amor de outros tempos, está na lembrança de um beijo, porque é no conforto de nossas coisas boas, acontecidas, que nos revigoramos de tempestades nos tempos presentes.

Todos nós temos nosso aconchego. É quando a noite desce, e nos enrolamos em nossos travesseiros, e imaginamos fantasias sobre o que poderíamos ter feito, é quando choramos sem motivo algum, porque esses momentos não são de fraquezas, é quando choramos por injustiças, e nosso aconchego não está em nada poder fazer, mas, o simples fato de querermos que o mundo seja melhor é a melhor maneira de demonstrar o quanto de bom temos dentro de nós.

São nesses momentos em que demonstramos para nós mesmos, que o mundo não deveria ser assim, que comparamos as vidas daqueles que sofrem às nossas vivências, com vidas vividas em um tempo anterior, imaginado, sem saber.

É quando nos aconchegamos perto Dele.

Porque se imaginamos que o mundo não pode ser assim como é, se existem injustiças, ódios e falta de amores, quando vivemos em um mundo impossível, de disputas desnecessárias, de ganâncias extremadas, pela razão de que as coisas são assim, geridas em nosso íntimo, quando entendemos que as coisas não podem ocorrer dessa maneira, e nos sentimos incomodados com isso, é que nossa alma, nossas lembranças mais guardadas nos lembram do aconchego de que já habitamos um outro lugar, mais justo, onde a irmandade realmente existe.

Porque o entendimento de que o mundo é injusto vem do fato de já termos vivido a justiça plena em algum lugar. A comparação é a consequência de que estaremos de volta para o nosso aconchego algum dia, e a certeza de que Ele existe, com certeza.

Foto: William Krause / unsplash

 

O primeiro beijo

O primeiro beijo
O primeiro beijo

Crônica por Nilson Lattari

Vamos lembrar do nosso primeiro beijo? Você roubou, ele foi dado? Foi surpreso, inesperado?

Quantas fantasias existem no primeiro beijo. Vamos relembrar?

Foi num encontro de olhares, quando as palavras já perderam o sentido, as mãos se atraíram, o toque foi nervoso, estranho, o primeiro contato com alguém não familiar, sem risos, meio tenso, e uma espécie de ímã foi atraindo os olhares, os rostos se aproximaram, meio escondidos encontrando as bochechas de dois lados, e um abismo se abriu, o chão se afundou, e tudo aconteceu.

É mágica, simplesmente mágica.

Em um artigo foi descoberto que o beijo é algo recente. Os egípcios encontravam os rostos e não havia o contato labial, por exemplo. Seu nascimento foi um mistério, que leva duas pessoas misturarem salivas e bactérias, ignorando perigos.

E o beijo é isso: um perigo, e tudo que é proibido tem seu sabor, sua quentura, algo escondido, sem testemunhas.

Mas, existe um cheiro que acontece naquele instante, um odor que infla as narinas, uma mistura de pecado e permissão. Um beijo é a rudeza do algodão, é o inflar das pétalas da flor que se abre, é o encontro de corpos calados, é o inexistir, o tempo parado, é a vontade de não se acabar.

O mágico do primeiro beijo é que ele nunca se repete. Ele nunca é o mesmo, mesmo que se beije o mesmo amor por longos anos, ele adormece na lembrança, a emoção se resguarda, e por isso ele se torna único. Para sempre ser lembrado como o primeiro, aquele beijo.

Pois ele tem um significado. Ele sela o amor entre dois seres, e de repente aqueles dois não são mais os mesmos, se tornam únicos, partilhadores de segredos, criadores de fantasias futuras, de projetos, conjecturas. Faz de dois seres um só. E aí está a mágica do primeiro beijo: o acordo entre dois, o abraço cúmplice que marca o futuro, ele é a primeira aliança entre dois amores.

Foto: Azrul Aziz on Unsplash

 

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