btn facebook  btn youtube  btn twitter  btn google plus  acontece instagram  acontece issuu

 

Acontece Magazine
btn facebook   btn youtube   btn twitter  btn google plus  acontece instagram  acontece issuu
acontece logo darkred

A mulher de areia

A mulher de areia
A mulher de areia

Crônica por Nilson Lattari

No início da tarde, segunda-feira, depois de um final de semana movimentado, a praia não oferecia muitos atrativos, além de poucos banhistas ao longe, jogadores de vôlei e outros passantes eventuais, moradores do local; ela era deserta, completamente. Era o momento ideal para que eu pusesse ordem na barraca, limpando, arrumando, jogando coisas fora. Na última olhada que eu dera para o mar, não encontrei viva alma caminhando pela areia branca, da estrada até a elevação em frente, e logo depois o quebrar das ondas.

Distante do centro da cidade, o local somente servia para que os usuários o procurassem somente no final de semana. O tempo frio não convidava ninguém a se aboletar em um carro ou ônibus para usufruir do vento que carregava intermitente a areia de um lugar para outro.

Na chegada da tarde a frequência aumentava, recomeçando o ciclo de noitadas barulhentas, aí sim, alimentadas por uma juventude em busca de algo mais para fazer. Julgavam-se os verdadeiros donos da praia. Ao final de um dia de aula, um bando de adolescentes aproveitava os restos de sol, divertindo-se na areia com seus jogos.

Depois da última olhada por cima do balcão, abaixei-me e fiquei reclamando da vida organizando garrafas vazias, retirando lixo misturado teimosamente com a fina areia trazida pelo vento, embalado apenas pelo falatório dele por entre os espaços da barraca de madeira rangente e teimosa a resistir na areia.

Nada a separar aquilo que era um resto de estrada barrenta e o mar. A barraca de madeira era o último comércio à vista, e depois do mar, a África, a muitos quilômetros de mar aberto. Não pude deixar de rir ao lembrar as piadas dos adolescentes dizendo: “Sabe o que nos separa da África? O quê que está ali! respondiam os outros. A barraca do Amauri!”.

Eu os conhecia, eles me conheciam. Traziam-me confidências, eu os confidenciava mentiras, inventava histórias da praia, de frequentadores misteriosos. Eles ouviam com atenção. Se acreditavam ou não, era outra história. Mas eu os divertia e eles me divertiam. Nunca vi disco voador, sereias ou coisas parecidas. Mas eles acreditavam quando eu dizia. E eu falava com grande ar de seriedade. Aprendi assim. O mar não sorria e eu aprendi a não sorrir com ele. A praia era uma escultura de areia, que sorria somente quando o vento a desfazia em pequenos pedaços. Imperceptíveis. Assim deveria ser o meu sorriso quando lhes inventava histórias. Na verdade eu sorria, mas eles não percebiam.

Mesmo quando um carro passava apressado, largando uma poeira barrenta impunemente sobre a areia branca, eu não me surpreendia. Imaginava o que ele transportava, quem e para aonde?

Uma vez, quando olhava pela enésima vez, com mau humor, o monte de areia antes do mar, julguei ver um pedaço de pano que esvoaçava no seu topo. Não era um pano comum, obedecia a um movimento lembrando o leve caminhar de alguém. Parava alguns momentos, e o pano, que os meus olhos apertados identificaram como a ponta de um chapéu, estacionava exatamente acima de um montículo de areia, parecendo a continuação da elevação. Veio chegando mais perto e pude identificar quem caminhava e que, de súbito, sentou na areia a admirar o mar. Pelo feitio do chapéu, sem dúvida, era uma mulher, e o laçarote esvoaçando no vento estava preso nele. Meus olhos se aguçaram e não pude identificar nenhum carro parado por perto. Com a ajuda do binóculo cheguei mais perto e um vestido branco, servindo de fundo a uma cabeleira negra que se revoltava contra o vento, como se fosse uma presa a se debater aprisionada, revelava ser de fato uma mulher. Dirigi o olhar para a estrada, novamente, e nenhum carro havia por lá. Indaguei como ela teria chegado até ali.

Voltei para o meu trabalho e fui desperto por um despejar de pedras, bijuterias, colares, que fizeram um estrondo por cima do balcão, algum tempo depois.

A chegada daquela mulher vestindo uma roupa branca, cabelos presos, com o vento castigando alguns fios que teimavam em se colocar na frente dos imensos óculos escuros que encobriam seus olhos, no meio do nada, me assustou.

Aproximou o rosto e pediu quase que como uma súplica uma água de coco e se tinha permissão para sentar em uma das cadeiras espalhadas na areia. Não é comum esse pedido, muitas vezes as pessoas as ocupam de qualquer maneira, sem nada para consumir. O movimento era quase nulo e isso nada tinha de importante.

Sentou-se elegantemente e de pernas cruzadas fitava o mar. Algumas vezes parecia discretamente olhar para os lados à medida que algum carro passava.

O sol já apontava no céu o início das quatro horas da tarde, e um aquecimento morno adornava e brilhava nos espelhos dos óculos escuros dela. A clientela começou a encher as cadeiras, mas eu não perdia de vista os movimentos da mulher. Os carros já se amontoavam trazendo a revoada de estudantes de quem havia falado.

O jornal era a distração minha e o rádio em alto som parecia incomodar minha bela cliente. No mesmo instante abaixei o volume e um gesto sutil de cabeça foi o sinal de que estava certo.

Um carro se aproximou e a mulher procurou ficar mais próxima da barraca movimentando a cadeira como um gesto de busca por privacidade. Do veículo saltou um casal, que se aproximou do balcão, e eles, sorridentes, pediram refrigerantes. Ele tagarelava sem parar enquanto sua acompanhante procurava um local para sentar. A minha convidada continuava impassível, mas eu percebi um olhar de interesse. Ela se misturava aos outros clientes. E cada um deles exibia desde a solidão, como ela, a paquera explícita e a alegria do bate-papo entre amigos. Entre eles, indiferentes, a paixão do casal recém-chegado.

A jovem puxou o rapaz e eles foram para a areia, assim como alguns outros. Em particular a mulher acompanhou o movimento dos dois. Namoravam e se abraçavam e pareciam dançar chutando a areia de um para outro.

A movimentação foi acompanhada pela mulher que ajeitava os óculos como se procurasse melhor visualizar aquele casal que se dirigia para o mar.

Ficaram sentados algo distante da barraca e olhavam a água, trocando carícias. A mulher então se levantou e se dirigiu para a areia, aproveitando um grupo que se deslocava para uma partida de vôlei. Ela se misturou a eles e não tirava o olhar do casal. Sentou-se e vagarosamente começou a juntar areia em torno de si. Meticulosamente.

Distraído atendendo aos clientes, esqueci momentaneamente dela. Depois de algum tempo resolvi procurá-la. A areia já havia tomado altura até um pouco além da cintura. Ela se vestira literalmente de areia e seu olhar não se desviava do casal. Eles agora estavam deitados na areia, aos beijos. Rolavam, mesmo ele que vestia calça, camisa social e gravata, e os sapatos dele e dela lado a lado acima de suas cabeças.

A mulher estava paralisada dentro do vestido de areia e parecia compor uma escultura igual a essas que vemos nas praias.

Algumas vezes vira esculturas na areia. Competições, competidores, uma chuva de areia e criatividade. Edificavam somente com areia e água. Do nada, tiravam episódios da história, faziam propagandas. Mas nenhuma escultura se equiparava àquela mulher no meio da praia envolta em areia. Não se importava com os olhares dos outros, apenas amealhava uma quantidade cada vez maior de areia em torno de si.

Depois de algum tempo, o casal se levantou e se dirigiu para a estrada. Com o olhar, a mulher, discretamente entre os assistentes do jogo de vôlei, acompanhava os seus movimentos.

Quando eles se distanciaram com o carro, então ela se levantou e sem se importar com a areia que havia inundado o seu vestido branco foi caminhando na mesma direção. Andou um pouco pela estrada, retornou, percorreu a trilha no mato ralo, voltando o olhar, discretamente, na direção do carro já ao longe. Dirigiu-se a mim, perguntou quanto era a água - eu havia esquecido de cobrar -, pagou, alisou o dedo anelar esquerdo de onde retirou uma aliança, afagou-a, mudando-a para outro dedo e sorrindo um sorriso tenso afastou-se. Deixou-me uma lágrima a escorrer de lembrança. Caminhou pela praia, subiu a pequena elevação antes do mar, e desapareceu.

 

Pinit Fg En Rect Red 20
e-max.it: your social media marketing partner

Notícias Relacionadas

News
Monstro e Companhia

Crônica por Nilson Lattari Certa vez, João, um agricultor que morava em Praépolis, uma cidadezinha muito esquecida pelo tempo, arrumou um grande amigo chamado Carlos. Carlos também era agricultor, mas, muito...

News
Encontro na noite

Crônica por Nilson Lattari Esta crônica conquistou o primeiro lugar XXIX Concurso de Contos Paulo Leminski 2018 Ainda me lembro da fumaça enrolando da ponta do cigarro subindo enovelada. Minha mãe...

“Legally Blond”

Dez/13 ate Dez/30 - Musical “Legally Blond”

Musical premiado - O musical premiado inspirado no filme…
Sunset Samba at The Diplomat Landing

Dez/30 - Sunset Samba at The Diplomat Landing

Sunset Samba at The Diplomat Landing - Domingo, dia 30, das…
O show “Jazil Brazz”

Dez/30 - O show “Jazil Brazz”

“Jazil Brazz” - O show “Jazil Brazz” traz para os palcos do…
Réveillon 2019 no Fontainebleau Miami Beach com J Balvin & Alesso Ring 

31/dez - Réveillon 2019 no Fontainebleau Miami Beach com J Balvin & Alesso Ring 

Os Dj’s J Balvin e Alesso transformarão a icônica paisagem…
Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes

Jan/08 e 09 - Show dos Tribalistas em Miami

O que: Tribalistas, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e…

Videos

CLIQUE NA IMAGEM PARA ABRIR O VÍDEO

 

Karmel Bortoleti

Making of do ensaio fotográfico de Karmel Bortoleti para a editoria fashion da edição de abril de 2017 da Acontece Magazine


Ensaio fotográfico do ator Caio Castro em Miami para a Acontece Magazine de agosto de 2017

Ensaio fotográfico do ator Caio Castro em Miami para a Acontece Magazine de agosto de 2017


Vera Viel posa com tema náutico para a Acontece Magazine em Miami

Vera Viel posa com tema náutico para a Acontece Magazine em Miami


Ensaio Fotográfico

Ensaio fotográfico com as modelos Cate Chant e Flavianny Nassimbeni para a editoria Fashion da edição de maio de 2016 da Acontece Magazine por Gerardo Gomez


Making Of Abril 2016

Ensaio fotográfico com Karmel Bortoleti para a editoria Fashion da edição de abril de 2016 da Acontece Magazine por Gerardo Gomez


Ensaio fotográfico para a editoria Fashion da edição de março

Ensaio fotográfico para a editoria Fashion da edição de março de 2016 da Acontece Magazine por Gerardo Gomez


Acontece Magazine - Making of - Karina Bacchi - March 2016

Acontece Magazine - Making of - Karina Bacchi - March 2016


Ensaio Fotográfico

Ensaio fotográfico para a editoria Fashion da edição de fevereiro de 2016 da Acontece Magazine


Making Of Janeiro 2016

Making of do ensaio fotográfico para a capa e a editoria fashion da edição de janeiro de 2016 da Acontece Magazine com a participação da modelo Andrea Méndes Arroio


Making Of Dezembro

Acontece Magazine Making of de Dezembro 2015




Our website is protected by DMC Firewall!